As crises ocultam umas das outras ou mas de que é que eles estão a falar

Muitos malefícios se têm atribuído à crise sócio-económico-financeira ainda que no seu início, alguns, particularmente aqueles da área da gestão, tenham lembrado a equivalência entre crise e oportunidade. De facto, desta vez tinham razão – é muito difícil estar errado o tempo todo- embora de modo a não ficarmos estupefactos, só parcialmente. Mas foi precisamente a transfiguração da crise em oportunidade para alguns sectores que acabou por gerar novas crises, sendo que este desenvolvimento nada inabitual acabou por aprofundar a percepção de crise.
Podemos dizer que registamos várias crises, a crise da representação, a crise da linguagem, a crise da complexidade e a crise da auto-referenciação – quem quiser é livre de adicionar mais algumas que também giram perto do núcleo.

A crise da representação tem vindo a agravar-se nas últimas décadas. Pode-se dizer-se que esta variante actual é enteada do voto universal, apenas foi algo obliterada nos anos duros mas sempre jovens dos pós-guerras. A falência da representação é verificada desde tempos muito antigos, Platão já falava dela mas foram os romanos da república que a lidaram de frente, usando e abusando dos contra-poderes para atenuar a sempre eminente derrocada da representação, leiam-se as muito interessantes páginas de Maquiavel sobre os discursos da década de Tito Lívio. Depois do afastamento do divino da origem do poder, da frustada tentativa de Hobbes de substituir o sagrado pelo individualismo radical que só poderia sonhar sobreviver após auto-amputação quase total, uma contradição insanável, o poder moderno quis vestir-se com a racionalidade misturada com doses variadas de emoção transportando sangue, crenças não religiosas e derivados. A globalização, ao afastar o racionalismo – não há razão ou julgamento no meta-estado actual do consenso unânime com a eleição a negar o acto da escolha e a a transfigurar-se na tabulção de afectos – e ao diluir ao máximo o sangue e a nacionalidade atirou a representação para o seu devir prometido, o mundo do cerimonial.
A incongruência nasce da pretensão da globalização em protagonizar um determinismo histórico que nunca poderia ser satisfeito seguindo apenas as leis da produção.

A cerimónia que vai, pelo menos nalgumas aparências, variando, obedece à ambição de satisfazer o máximo de gostos, sob a novimáxima, agito (me), logo existo, é no fundo muito, demasiado monótona, com os celebrantes máximos a repetirem-se ad nauseum, rodopiando por entre as várias capelas, proferindo imparáveis elogios mútuos. Ao fim de algum tempo de assistirmos a estes cerimoniais, já nem é bem pelos efeitos da novilíngua e do duplipensar que nos anulamos, verdadeiramente nem sabemos do que é que eles estão a palrar – relatórios de comissões e comités que analisam completamente ao lado, que elaboram projecções sobre o vazio mais ou menos completos, que falham contas impossíveis de falhar, que comentam reajustamentos e reformas cuja verdadeira agenda não pode ser divulgada. Esta crise da representação veio para ficar e aprofundar-se porque corre em paralelo com a crise da auto-referenciação.

A crise da linguagem é filha da crise da complexidade. Não é fácil a criação do vocabulário e as palavras têm vida e contexto. A crise da linguagem tomou duas formas extremas, seja já há não há nada para dizer, seja tudo ficou por dizer. A linguagem tem cada vez mais dificuldade em significar alguns dos novos significantes ao mesmo tempo que sofre o ataque letal da novilíngua. A linguagem que seria suposto ser um meio para comunicar transformou-se num meio para esquecer e para paralisar. A babilónia interlinguística chegou à fase da babilónia intra-língua.

A crise da complexidade tornou o complexo ininteligível. Paradoxalmente, em superfície, o mundo complexo está cada vez mais simples por desistência, por racionalidade finita e esta hipercomplexidade tornou o pensamento ao mesmo tempo livre e prisioneiro dessa liberdade. A complexidade parece mostrar que o erro é o resistente alicerce do progresso do pensamento e vida do homem, a complexidade está a gerar a indiferença pós-moderna num primeiro tempo logo seguido pela queda na irrelevância e o vazio pós-pós-moderno. A complexidade regrediu até ao algoritmo infantil, a complexidade assassinou a responsabilidade, logo a complexidade matou a liberdade.

Estas duas crises, a da linguagem e a da complexidade culminam na crise da auto-referenciação. Montaigne afirmou lucidamente que as verdades repousam na maior parte das vezes nos costumes e a priori locais e não numa dialéctica que Hegel tão brilhantemente elaborou. A auto-referenciação repousa por definição no conhecimento experimental em contra-posição com o saber algorítmico, logo não se estranha que a auto-referenciação esteja a ser desprezada e não tolerada como resquício do homem pré-grego, melhor pré-aristotélico. A auto-referenciação é, entre muitas outras coisas, aquilo que permite preencher o ser com a liberdade no meio da comunidade. Sem auto-referenciação a liberdade individual desvanece-se perante a certeza do pensamento algorítmico, algo parecido com o neo-liberalismo do presente que se pode dizer ser um pós-comunismo que não chegou sequer a nascer. A negação da auto-referenciação quer eliminar o cepticismo, é o Leviatã ressuscitado, quer transformar a segunda opinião na única escolha aceitável porque só essa pode ser sujeita à manipulação.

A crise da auto-referenciação desagua na crise dos representados que se vêem despidos dos padrões para enquadrar os representantes. Passou tudo a ser novamente aceite, tudo é justificável uma vez que esteja contido pelo “main stream” – tudo se pode fazer na corrente que tudo dilui, a margem está proibida porque é o lugar da diferença. Encerra-se de forma lenta a abóbada: os fiéis estão desorientados, os celebrantes ignoram o breviário, o coro de gongórico só tem o nome, ensurdecido pela enésima fuga de Bach. Para contra-balançar ou como arcobotante da periclitante abóboda, à porta vende-se pão e doçaria e ainda resta algum dinheirito para o vinho sempre doce. Não chega a ser decadente, já não há consciência para tanto, o processo quasi demencial é radicalmente cacânico. Até ao suportável que ainda está longe.

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