Sócrates e Juncker, acto um e cena um, únicos ou na Cacânia, não adormecer já é sinal de distinção

Já sabemos há muito, muito tempo que nada se aprende e que a tragédia se repete no modo da farsa, só suportável á luz da mitologia. Numa sociedade onde a tão reclamada regulação falhou há muito – realmente sempre o fez, estava na sua natureza, excepto para alguns crentes numa doutrina que não pretende revelar mas sim endoutrinar, a essência de qualquer boa doutrina – e desempenha papel igual às paredes de vidro na exibição da vida, tudo se passa realmente detrás dos panos, a promessa do bilhete de acesso ao lugar de actor não se cumpriu, os compradores foram desviados para a plateia para testemunharem a pantomina.

Como se sabe, a cena da prisão de um ex-primeiro ministro não vai ter sequências, é única de um acto também único. Só há um dito super-juíz porque assim foi determinado de forma clarividente, que mesmo que se fosse dotado de serviço de estado -poucas vezes o houve na história e geralmente apenas em climas de grande ameaça, talvez seja isso uma das melhores razões para explicar a baixa corrupção escandinava – deve viver numa grande desorientação no mar de centenas de potenciais corruptos e corruptores. O antigo primeiro-ministro vai ser exibido tristemente como prova de vida de alguém que nunca quis nascer, de alguém que já não se sente fadado para protagonizar o cerimonial de um poder, apenas manda recados pelos jornais. A justiça, o maior sonho de Adriano de Yourcemar, foi sempre um edifício inacabado, com a fealdade das estruturas á mostra dos bairros de lata andinos – inacabados por falta de fundos e para escapar aos impostos, a justiça sempre exagerou nas suas promessas. De qualquer maneira, Sócrates irá ser o primeiro primeiro-ministro condenado por corrupção e tal não será um engano da justiça.

O caso Sócrates constitui mais um elo de uma longuíssima cadeia da falência da representação. Nunca foi resolvido nem nunca o será o falhanço de representante. Poder-se-ia avançar como atenuante que a vida é de facto um conjunto interminável de erros, de ausências e de insuficiências mas isto não desculpa o representante, o representado sente que o erro é uma condição inseparável do seu ser e nunca pode entender essa transmissão, no fundo a propriedade do erro é a condição da sua essência. Não está bem resolvida, nem nunca estará a contradição insuperável de aceitarmos a transferência do direito de governar com o dever de acatar a transferência do erro do representante, por isso é que ele pode ser substituído. Hobbes tinha alguma razão mas pouca, aliás qualquer sistema de argumentação perde sempre a sustentabilidade quando é desenvolvido na sua plenitude – o garante do sustentável é o erro intrínseco do sistema, não uma eventual pureza do mesmo, só o erro se aproxima da natureza e do ser.

Se Sócrates vai ser o primeiro de uma lista de um único isso apenas quer dizer que o sistema está a esgotar-se, já não tem a vitalidade de se pôr em causa de forma repetida e a sua inevitável condenação só se torna possível porque é facilmente digerível pelo sistema, algo muito mais complicado do que aquilo que poderá acontecer com Salgado, um erro de um capataz é de imediata resolução, a de um agente não.

Juncker é uma versão mais inteligente de Sócrates, na aparência protegido por um enquadramento legal que permita nichos que o contradiz e que só sobrevivem porque estão escondidos ou pela sombra ou pela multiplicidade, tal como os ramos mais avançados de um fractal são iguais a qualquer outro. A desmultiplicação, a consequente proliferação e o estendimento em toalha globalisante torna tudo indistinto. Talvez Juncker não tenha enriquecido de forma directa como Sócrates, apenas terá alcochoado o seu assento favorecendo a fuga aos imposto de outros, prejudicando muitos que queriam sonhar entrar na competição mercantil para benificiar os raros incumbentes, enfim Juncker foi um estadista padrão.

Nada disto é realmente novo, nem Sócrates, nem Juncker mas na verdade, nada disto é realmente velho. Como sempre, aparece qualquer coisa adicional para evitar a repetição enfandonha, a cópia acrescenta qualquer coisa ao original, o presente acrescenta o passado. Este estado persistente corruptivo do presente medra agora num ambiente de quantidade excessiva de dinheiro, nunca houve tanto como agora e nunca o estado se tinha apropriado de tanto como agora.
O que faz o estado: redistribui para quem mais tem, como sempre fez – o estado social começou com um propósito de acalmia das massas em dificuldades e reivindicativas, trasnformou-se numa indústria com bons lugares para os capatazes que se sustentam na promessa habitual de pão e circo para a geral e de mais empregos para as primeiras filas da plateia. Os mais rapaces fazem como Sócrates, outros com mais densidade satisfazem-se com privilégios – foi quando a nobreza se desinteressou pelos privilégios e gulosamente invejou os lucros e rendimentos que esta fase da história começou e que, em consequência irá acabar um dia sem ninguém saber como.

Quem manda, coordena, já nem se sabe, será o sistema financeiro certamente mas não será que esse castelo foi tomado por uma trupe imparável de capatazes? A quem deve interrogar o agrimensor, mas o que querem dele?

No fim do dia, escutando histórias que monotonamente se repetem quase iguais umas das outras, cansados, não cair no sono já é sinal de distinção, própria de quem não quer ser sacudido para acordar. Hélâs, quase todos temos de dormitar pelo menos, com uma música de fundo agradável na Cacãnia rica e central, na periférica é a sabujice habitual. O mais revolucionário é que até na Cacânia rica não há o desejo de ter filhos, Sextus tem a certeza que Merckel leu Musil.

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