De Morais a Poiares até Canetti ou só há ouvintes e membros do facebook na Cacânia

Esta semana tivemos uma exposição bastante descritiva dos mecanismos da corrupção na luso cacânea feita por P Morais num canal de grande difusão, o dois da RTP. Louve-se o discurso fluído e apreensível de Morais assim como a sua disponibilidade e recusa do kinismo de Diógenes e do cinismo pós iluminista. Muitos concordarão com a pintura que Morais desenha e não será Sextus o desmancha prazeres, mas creio que as cores estão pontualmente mal seleccionadas e a paisagem acaba por não constituir o paradigma que se quer erigir.

Morais acredita que na corrupção pode ser encontrado grande parte do atraso português, no fundo uma versão do dualismo países inclusivos e exclusivos de Acemoglu. Também não se pode contrariar isto mas a corrupção não chega para suportar a discronia lusitana.

Por vários motivos, muitos ainda não percepcionados distintamente, outros muito antigos, os lusitanos vêem-se como periféricos há muitos séculos e só talvez durante a segunda metade do século XV e a primeira do seguinte quase que conseguiram deitar para trás esse peso. O peso desse século excessivo foi pago com a exaustão de recursos, agravado com a angústia sobre a existência do país no período filipino. Outros adicionariam os judeus expulsos mas Sextus crê que as origens da involução são mais intrínsecas e não exteriores à nação (embora não se possa excluir de forma negligente que esses judeus também pertenciam à nação). A assunção da sua inferioridade rapidamente descambou no agravamento da corrupção.

Morais pensa ao contrário, a corrupção origina o atraso, Sextus vê a corrupção mais como desvios de recursos de uns lugares para outros, desvios activamente promovidos que na sua ausência talvez permitissem resultados diferentes.

Corrupção limita as oportunidades e em casos mais agudos quase se transforma numa impossibilidade de fazer, com derivados de fuga e de medo.
A intervenção do estado na RTP também deixa adivinhar grossos fumos de corrupção neste caso do futebol. Aquilo que parece é que a compra pela RTP perturbou o negócios de agentes privados que viam no estado o seu protector e não um concorrente. Não é sério invocar o desígnio da RTP para censurar o negócio. O que se tornou levemente implícito é que o conselho geral independente é essencialmente mais um regulador que representa quem tinha que representar, os incumbentes – a legalização dos lobbies na terra da última revolução democrática não constitui um sinal de maturidade, mas antes um reconhecimento da derrota dos princípios fundadores. Os ditos pais da democracia americana teriam que praticar contorsões impossíveis para encaixar o governo do povo pelo povo com a institucionalização dos lobbies – o princípio da gestão tayloriana de que tudo que se não pode medir não é importante evoluiu para tudo que não se pode pagar não tem valor e os americanos caíram na armadilha inultrapassável: a independência, a liberdade e a responsabilidade não se podem medir mas são na realidade os valores mais importantes.

A corrupção deve ser lida preferencialmente como o desgaste das ligações entre quem estava ligado. A corrupção mais importante – honra lhe seja feita, Morais falou isso de forma explícita – atinge a ligação representado-representante. Há muitíssimas razões para tal, uma delas está no próprio sistema, conforme refletiu Platão logo no início. A adição da corrupção à representação (uma forma de substituição, logo algo aparentado com a corrupção) produz inevitavelmente a eliminação progressiva da responsabilidade. É a este trio, representação-corrupção-inimputabilização que de o estado cacânico o seu nascimento.

Para que o estado cacânico não morra rapidamente é necessária que a sua massa não pare de crescer até ao limite de englobar tudo. A política predominante do ocidente, a globalização, não passa de uma versão das massas de Canetti, onde cada um se dilui, onde cada um porque deixou de o ser pode ultrapassar o medo, onde as ordens deixam de ser os espinhos da individualidade.
Falta a este projecto, benigno an primeira leitura, demencial na reflexão, a projecção: o que é que a massa quer projectar. Como aparenta nada lhe ter sido dado para o fazer, a massa só poderá sobreviver na versão do admirável mundo novo.
Só pode haver ouvintes na cacânia, ou caros telespectadores ou telejogadores. A massa adora o facebook, a versão moderna do soberano de Hobbes.

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