Até á bem-aventurança cacânica ainda restam algumas revoluções naturais ou quando tudo poderá ser remetido para as análises SWOT dos gafanhotos modernos

O desfile parisiense do passado domingo remete para Canetti, o judeu do leste. Quais seriam os principais vectores de formação daquela massa nem o próprio Elias avançaria com segurança na sua identificação. O pensamento fácil, logo predominante, proclamou a defesa da liberdade como causa próxima e talvez esteja perto da verdade. Nesse caso, a revolução dos capatazes já vai bem avançada, vendem um artigo que não existe, nunca existiu, a dita liberdade e conseguem mobilizar a massa para defender a agressão ao não existente, sendo verdade que as massas muitas vezes optam por substitutos na inultrapassável ausência do significante.

O desfile também foi modelado pela emoção, aqui há um potencial retrocesso. A emoção implica sempre uma focalização, um afunilamento da atenção e da paixão. Ora, a base do projecto do controlo das massas assenta na sucessão rápida e infinda de brevíssimas emoções, que não chegam á exteriorização, apenas se esbatem na fadiga e sobreposição infinda. A sinalização de um desejo a que a massa possa emprestar uma emoção mais que fugidia torna-a descontrolável e pronta para a identificação de outros projectos globalisantes.

O desfile tem perigos potenciais. Sextus acredita que o processo de construção da separação entre o castelo e a aldeia, para ser bem sucedido, não deve conviver com momentos de aparente compreensão e identificação entre os donos do castelo e os aldeões. O sucesso está na construção da incomunicabilidade e inacessibilidade, os aldeões são obrigados a transferir a sua inscrição – como diz Gil – para a representação porque não estão abilitados ao conhecimento global, restrito ao castelo. A perseguida cacânia é o fruto da representação elevada á representação até à esquizofrenia abençoada. A partir do momento em que o poder perdeu o carácter sagrado tem que se enroupar pela incompreensibilidade. Um poder que é compreendido leva á sua perda, quem o apreende toma-o ou luta com ele. O pio desejo do compromisso como etapa moderna do poder tem sido a sua melhor veste mas os rasgões são demasiado largos, embora as massas pós-modernas e endoutrinadas tenham até agora suportado tal figura.

Como sempre, uma outra face do desfile é benvinda para o projecto, a marcha da massa confirma a bondade da via única, assegura que uma razão casada com a emoção só pode ser fruto da grande verdade. A massa visualiza-se como motor e origem da vontade e julga ultrapassar as limitações da representação – a massa não transfere a representação, nada existe para além da massa para receber esse testemunho, durante o desfile há um vazio de poder, melhor, o poder mergulhou no buraco negro da massa. A melhor maneira para suportar o componente da solidão da fase actual antes da chegada ao paraíso cacânico onde novamente todos poderemos estar juntos, deveremos mesmo, é a permissão para momentos de assunção de grupo.

Diga-se em abono do poder, que este também sofre com o processo de cacanização que desenvolveu para a massa. Para além da construção do homem novo pelos revolucionários que estão no poder, o homem sem qualidades e sem emoções, o programa do disco duro a inserir na massa e no próprio poder será uma análise SWOT que implicará um apagamento de todas as outras programações. Não haverá valores porque o caminho é único, a inevitabilidade, o historicismo são, por definição, desprovido de qualquer valor para além da necessidade. Claro que o historicismo está em ruptura fatal com o devir heróico, despreza mesmo a massa – qual pode ser a reacção da pré-massa atomizada ao desprezo a que é votada é uma pergunta com várias respostas.

A clonagem do cadáver de Hegel e de Marx tornou-se possível, não temos a Dolly, teremos a trupe dos capatazes-gestores que assassinaram praticamente todos os antigos donos do castelo – exemplo actual, o extraordinário caso da PT, onde já é difícil identificar donos mas é fácil adivinhar cumplicidades, perceber silêncios e chorar prejuízos que rapidamente serão transformados (a oportunidade) por quem pode marcar as cartas, em apetitosos lucros. A metamorfose do futuro gerará mais do que capatazes actualizados, serão gafanhotos que tudo capturam. Será a caricatura adivinhada da meritocracia, a riqueza concentrar-se-á nos super gestores de méritos que nem a massa vê e que atribuem mirabolantes gratificações recíprocamente – lá estará o douto Bilhim a validar tanta sensatez e inteligência funcional. O sangue susbstituído pelo golf – parece que está em queda, o que irá susbtituí-lo, nem Sextus dorme com esta angústia – o acumular pela conservação ameaçado pela força da oportunidade da captura.

Aquilo que surpreende, é mesmo paradoxal, logo de recear que possa ocorrer, é que se está a criar o notável homem novo sem qualidades desprezando a emoção das massas, pelo contrário promovendo a sua atomização. Tanto Huxley como Orwell apresentavam a distorção potencial do lobo solitário nessas sociedades do futuro, sempre empurrado para o extremismo. Mas antes das novas sínteses, se é que irão surgir – já o fizeram no passado mas tal nunca constituiu garantia de que continuem a fazê-lo no futuro – ainda há algumas revoluções, ditas oportunidades, que terão de ser realizadas pelo poder global.

Talvez nunca tenha havido poder tão revolucionário na história humana pelo menos na metade ocidental, o mundo indiano parece continuar submergido na roda da morte de Chesterton e o mundo chinês é de muito difícil compreensão para um amador. A revolução em curso tem aliados poderosos, os três maiores são o terreno, ou seja as características do homem em busca da identidade e da referenciação a um único, predisposto a transferir quando percebe a sua incompreensão sempre na esperança de que aquele que aceita a transferência possui a chave para o segredo, o inigualado poder da mimetização e conformação dos meios de comunicação ajudado pelo ruído ensurdecedor da net e a transformação do revolucionário no guardião do status quo e aquele que recusa a revolução no imaturo revolucionário, diferente da velha oposição comunista entre revolucionário e reaccionário – a criação da globalização, do derrube de fronteiras, da moeda única, da transferência de poderes, da regulação, da financiarização da economia ad nauseum, da taxação absurda, da confluência entre banca comercial e de investimento, da parceria público-privada, da vigilância nas ruas e em todo o lado é o historicismo imparável e para além de qualquer justificação, por inerência, a discussão disto é a postura revolucionária. Foi a oportunidade da mudança que a justificou, a reflexão sobre a mesma é a ameaça. Os revolucionários transformarão o fracasso em sucesso, guerra é paz, hossanas ao duplipensar e á novilíngua.

O desfile de domingo mostrou que, paradoxalmente, a revolução está em curso, não se defendia realmente a liberdade, não foi uma emergência de citoyens tardifs, apenas se proclamava o desejo de desaparecer no esborratar da uniformidade, o filho querido da igualdade e da mítica fraternidade. Só a sede do império não ressonava, mandou um capataz menor.

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