Clausewitz revisitado na fronteira entre a cacânia e o império, ou desde a guerra como continuação da política para a política como continuação da guerra

As sociedades de fim de ciclo, de fim de uma certa história apresentavam no passado uma grande fragilidade, principalmente as mais primitivas. Certamente que a escrita desses tempos de crise padece de dois defeitos cruciais, entre outros menos decisivos, a reescrita feita num tempo e por um autor que não viveu essa crise e a relativa qualidade dos conhecimentos sobre o passado. De qualquer modo, várias sociedades antigas colapsaram de forma algo rápida, umas vezes após um declínio silencioso mais ou menos longo, outras por incapacidade de suportar o desafio do estranho, o caso do derrube do império romano do ocidente constitui um bom exemplo da primeira variedade, o fim das civilizações índias da américa do norte a demonstração da segunda. Em ambos os casos, muitos são tentados para atribuir uma não irrelevante importância á má governação desses estados.

Nesta época mais tardia, as sociedades humanas adoptaram uma organização matricial muito mais robusta com muito maior capacidade de encaixar agressões exteriores e ruínas interiores parciais durante tempos prolongados. Esta forma de distribuição em rede na sua vertente mais eficaz facilmente engloba o seu agressor enquanto que nos modos mais frequentes, interage de tal forma com a ameaça que a conforma e limita. A rede final, a globalização acabada elimina a agressão porque deixa de haver exterior, mas como qualquer coisa está debaixo do domínio do divino Janus, se elimina o exterior elimina a vida, pelo menos a animal – no fundo, o projecto da globalização ambiciona transformar a grande massa humana numa gigantesca hortaliça.

A grande resiliência das sociedades avançadas é atribuída conforme os interesses, á grande complexidade que torna quase inexiquível qaulquer acção, ou por outro lado, à grande inteligência do governante / gestor qua sabiamente previne os piores desenvolvimentos e garante a melhor progressão. Na pré-cacânia moldada pelo império cada vez mais iremos oscilar entre estes dois pólos, o da máxima inibição e o da excelsa e informada intervenção.

A Gaúlia de hoje serve bem para ilustrar um pouco do que acima dizemos. O presidente Hollande de há muito vinha sendo apoiado pela última aldeia dos irredutíveis que albergava qualquer coisa á volta de 15 a 20% dos gauleses. Eis que um grupo de desorientados magrebinos pega numas metralhadoras e assassina uma dúzia de pessoas. O presidente alinha a mais previsível sequência de afirmações sobre este tipo de ocorrências e depois desfila com mais ou menos solenidade pelos campos Elíseos. Ora bem, tal é motivo de grande aplauso e passa a ser suportado por mais de 40% de franceses agradecidos por tão bom desempenho.

A Goldman-Sachs pode também avançar – noutro post já Sextus avisou que o processo da cacanização acaba sempre por atingir quem o comanda – eis que contrata um distinto advogado da praça lusitana, homem com grandes conhecimentos humanos e reputado senso de gestão política entre outras coisas. Que faz ele, nada, não faz o trabalho de casa – ou será que é um exemplar de fidelidade absoluta aos primeiros amores? -e ignora o diz-se diz-se e lá vão algumas centenas de milhões.

A PT é outra montra, antes refúgio de gestores aplaudidos de modo consensual, agora é uma confusão a ponto de não se conseguir identificar uma data para uma decisão de uma assembleia geral informada.

O ministro Macedo, durante anos identificado como o aladino que descobriu a arte de reformar e cortar sem se notar na montra, após o embate de algumas mortes mais ou menos embaraçosas nos serviços de urgência passa rapidamente para os desafortunados que não previram tudo e talvez tenham feito ou demais, ou de menos.

Na Grécia que vai a eleições -Sextus não percebeu bem para quê, pobre terra – vai descobrir depois de domingo que à austeridade expansionista e reestruturadora se segue a expansão austera e reestruturada.

A imprensa de quarto poder passou a primeiro poder como prémio por ter chegado em primeiro á meta cacânica.

Toda esta oscilação aleatória e etérea torna mais clara a grande resistência desta europa de outono tardio, primeira derrotada pela globalização imperial. A Sra Merkel ainda não percebeu que aquilo de que muito se ufana muito sorriso provoca ao incumbente que lá vai mantendo umas bases militares para o que der e vier. Isto de fazer carros e algumas máquinas não é bem o destino do centro, o centro manda e esconde o que faz de mais importante, quanto ao resto pode também vender. O centro sabe qual é o seu principal desafio, tentar a quadratura do círculo, a cacanização dos dominadores.

O que este canto do mundo ainda não percebeu, confortado pela resistência da velha opulência tão visível para quem a calcorreia, confundindo essa resistência com permanência, procurando esquecer as consequências da perda dos impérios é que a máxima de Clausewitz foi virada de pernas para o ar. Quando acordarmos só veremos os anúncios dos programas das celebrações cacânicas na sub-centralidade e o vazio e a velhice empobrecida da periferia, finalmente reestruturada. Nem Piketty percebeu em seiscentas páginas que a desigualdade sendo importante não é o centro da crise, a irrelevância sim.

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