De em economista, passando por um banqueiro até um secretário ou a lusocacânea dos criados e capatazes

No seu trabalho ” Capital no século XXI ” Piketty expõe a evolução do rendimento de capital e do produto de França e Reino Unido, entre outros, nos últimos trezentos anos, período de que há registos fiáveis. Daí concluiu que o rendimento do capital tem sido de forma persistente superior ao aumento do produto, logo a parte da riqueza capturada pelo capital tem tendência a crescer.

É muito interessante consultar as longas séries do aumento da riqueza e perceber que o ritmo é sempre muito lento, muito raramente ultrapassa os 2%. Também é elucidativo perceber que este ritmo de crescimento é muito similar entre os países do primeiro mundo ocidental e a superior taxa apresentada pelos USA deriva do aumento populacional e não de um hipotético aumento de PIB/capita americano superior ao europeu.

Também se percebe pela consulta dessas séries longas que são as duas guerras mundiais que geraram um colapso do rendimento do capital e uma taxa de crescimento da da riqueza mais elevada.

Disto deriva Piketty, no que Sextus concorda, que a projecção para as próximas décadas deste século combina uma baixa taxa de crescimento da riqueza, inferior a 2%, uma maior fatia do capital na riqueza, mais potenciada pela estagnação e nalguns casos diminuição da população europeia. Ou seja, até aqui, num raciocínio de meridiana clareza Piketty expõe o óbvio: o mantra de crescimento repetido pela CE não passa de um engano, de uma conversa de crianças, melhor ainda, de uma conversa para o homem inútil da cacânea em gestação.

Como muitos saberão, Piketty está focalizado na criação de uma desigualdade cada vez maior e não aborda outros problemas. Manifesta uma crença moderada no projecto da união europeia e nada diz sobre outra desigualdade muito importante, embora indirectamente a aborde ao divagar sobre as diferentes taxas de imposto sobre o capital e os off-shore.

Piketty não conhece os banqueiros lusos e é pena porque talvez elaborasse outras especulações. É verdade que durante a última década vários bancos ocidentais, quase todos para sermos mais correctos, derreteram uma colossal parte do seu valor de bolsa, mas com a ajuda do BCE que faz empréstimos a juros não de amigo mas de paizinho conseguiram dar a volta, escapar à bancarrota e muitos deles  conseguiram reapresentar uma trajectória ascendente no valor de mercado. Claro que os bancos periféricos têm muito mais dificuldades, particularmente em ambientes de baixo crescimento. Eles próprios afirmam ter algum dinheiro para emprestar mas não lhes apresentam projectos que aparentem ser viáveis. Mais ainda, com o empurrar do país para exportador de mão de obra com um leque alargado de qualificações, trata-se de uma verdade que se auto-alimenta.

Os dois maiores bancos privados portugueses depois da falência daquele que era o maior, exibem prejuízos muito importantes e vêem o seu valor afundar de forma exuberante. Esta dificuldade em inverter a queda será sempre maior na periferia, algo que Piketty não aborda e também algo que o centro parece não compreender. Ou seja, no novo mundo em gestação vão ser mais evidentes diferentes taxas de rentabilização do capital, algo que já era mais ou menos assim no passado com a assimétrica taxa de industrialização observada no ocidente. Isto era atenuado por uma tendência para crescimento demográfico mais vigoroso em sociedades um pouco mais atrasadas.

Certamente que o centro está muito consciente do que está a ocorrer e tem feito o trabalho de casa para lidar com este problema. A primeira tarefa dada aos capatazes que descem o castelo é espalhar a confusão, os aldeões não sabem o que fazer, nem sequer adivinham se alguém espera que eles façam alguma coisa. O agrimensor foi contratado para nada medir.

A segunda tarefa é fazer incrustar na aldeia a imagem de pertença ao castelo, coisa que na realidade incomoda o próprio castelo que não tem tarefas para a aldeia para além de servir comida e cerveja aos capatazes quando estes descem do castelo. A visão de que outras aldeias fazem o mesmo porque tal obedece à lei natural constitui a última tarefa do dia.

Não se trata bem de um projecto revolucionário, trata-se de um projecto essencialmente terrorista, mas elegante e atrevido, chamando de irresponsáveis e reaccionários todos os outros, ou seja, fora do homem novo proclamado por Maçães restam crianças e velhos.

Uma versão muito parcial disto que está a ocorrer é a investigação sobre a cartelização dos preços de produtos de higiene e derivados nos super franceses, a gloriosa globalização na sua verdadeira essência, a cumprir o seu destino. Americanos, franceses, ingleses e alemães todos juntos a almoçar e a trabalhar.

Alguns dirão que isto é um sinal de que nem tudo está perdido, mas basta ler Musil e e perceber que na Cacânia há sempre alguns infelizes. É  não perceber qual é tarefa dos governos desde sempre, não é regular é criar assimetrias de informação e de acesso, é uma inerência que uma sociedade tem de suportar mas que não deve permitir que cresça até a sufocar – tratado USA-Europa pode bem ser a almofada final.

Há uma dúvida que Sextus vai partilhar: o que fazem no castelo a tipos como o Maçães? Dão-lhes cerveja, chocolate ou lavam-lhes o cérebro? Espero que não seja muito doloroso.

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