Na era da razão cínica o nevoeiro amalgama os ignorantes espontâneo e selectivo

O esforçado Kant procurou delimitar os terrenos dos estados natural e civilizado mas no fundo ele bem sabia que tudo repousava no como se, algo que os pragmáticos britânicos claramente vislumbraram.

O estado natural gera de per si o confronto. Outro prussiano teorizou sobre a guerra e cunhou a famosa frase sobre a guerra como outra forma de fazer política. Os tempos evoluíram e nem sempre debaixo do sol tudo permanece. Estamos agora numa fase um pouco diferente em que a política é uma outra forma de fazer a guerra.

O conhecido Fukuyama avançou com a hipótese da história ser chegado ao fim, um erro de que já se arrependeu mas havia alguma intuição brilhante subjacente. O historiador sino-americano dizia por outras palavras que a mais recente guerra e pensava ele, a mãe de todas as guerras, tinha sido travada no campo económico-financeiro com um vencedor claro. Poder-se-ia dizer que no fim do século passado, o confronto financeiro era essencialmente a nóvel forma de fazer a guerra e nisso ele tinha razão.

Na semana passada fomos brindados com um estudo resumido produzido por um conselheiro de estado. Ora os conselhos de estado sempre serviram primordialmente para aconselhar o soberano sobre quando e como fazer a guerra. Logo, Vítor Bento podia gozar da expectativa de ser alguém atento e informado.

O que é que Bento descobriu? Um erro, que não quis assumir com clareza e duas epifanias. O erro era a sua crença, em conjunto com o pensamento financeiro politicamente correcto, que estávamos perante dois problemas, um excesso de dívida pública e um problema de escassez de oferta. Vá lá, vale mais tarde do que nunca. Só um desconhecimento profundo ou uma ocultação selectiva poderia querer equacionar que dívida pública crescente se correlacionava com problemas de sustentabilidade a curto ou médio prazo. Todos os impérios cresceram lançando dívida, todos os impérios se afundaram quando deixaram de poder impôr a sua dívida. Não era porque os mercados da época desconfiassem da sustentabilidade financeira do império, era a incapacidade do império em exercer a força necessária para obrigar à compra da sua dívida. A famosa série de RR sobre as dívidas públicas ilustrava isto de forma exuberante quando se consultava a folha do Reino Unido, dados que eles habilidosamente deslocavam para um segundo plano. No presente, a dívida pública apenas sinalizou o tempo adequado para iniciar a guerra entre o núcleo e a periferia.

Esta realização do erro trouxe a primeira epifania – o núcleo credor é que estava a ganhar com a periferia devedora e não o mantra de que os devedores deviam estar muito agradecidos por estarem debaixo da protecção dos benévolos credores. A tese que Bento agora descobriu ser um erro, ia contra tudo o que se tinha visto ao longo dos séculos mas o pensamento dominante que conseguiu vender-se como sensato, prudente e informado não recua perante a realidade, transfigura-a como bom revolucionário – claro que protegido por textos assinados por quem passa por conservador e sensato, os novos-velhos internacionalistas, aquela subclasse da elite que defronte o primeiro obstáculo sério desmonta do cavalo e vai tomar chá com os árbitros do concurso, confiados que mais uma vez as aparências vão tudo salvar. Ver historiadores partilhar estas teorias é confirmar que a história é uma velha muito pouco recomendável.

A segunda epifania foi a passagem da escassez da oferta para a escassez da procura. Tudo isto é muitíssimo relativo, Bento não percebeu que tanto uma como outra são constituídas por um jogo muito volátil entre desejos e necessidades. Bento devia visitar uma das metrópoles que talvez prefigurem o futuro, Mombai, para perceber melhor o mundo que estamos a desenhar. Em Mombai não há escassez de oferta ou de procura, há constantemente um excesso iterativo das duas, aquilo que é mais importante é a luta pelo acesso ao mercado, ele próprio.

Aquilo que Bento não compreendeu é que em tempos que estão a chegar não vale a pena pensar que o mercado que se joga no dia a dia de Mombai tem algo de perfeito, nada terá, a escassez relevante é de poder, poder para tentar controlar o mercado que atingindo tal dimensão acaba por enterrar de vez a pia destruição criativa, o grande caído tem força mais do que suficiente para impedir que o pequeno novo se ponha de pé –  algo que os americanos estão lentamente a descobrir quando verificam que se tornaram numa das sociedades mais cristalizadas do ocidente, o que é deveras impressionante se nos lembrarmos do efeito agitador da imigração. Quando esta diminuir, Nova Iorque cumprirá o seu destino, ser Mombai da América.

Falta a Bento descobrir outra verdade, o touro e o urso do mercado financeiro da dívida pública estão mortos há muito, redescobriram Clausewitz. Basta ver os juros da dívida pública de alguns dos países do núcleo como a França, a Alemanha ou o apêndice belga, permitindo até a um país completamente falido como Portugal apanhar a onda.

Pode uma sociedade infantilizada como Bento do conselho de estado gerar adultos? Tocqueville receava que não, Sextus como bom pirrónico quer refugiar-se na suspensão de julgamento. Talvez não sejam crianças verdadeiras, estão apenas a aparentar que o são conforme a selecção dos obstáculos, talvez seja o confronto moderno entre os epicuristas e os pirrónicos que estes costumam perder por serem assimilados com os estóicos. Há que apreender que tudo não pode ser resumido aos porcos e ao cavalo da quinta de Orwell.

Como nota final: um céptico no século XXI da gigantesca e inigualada manipulação não vacila sobre a liberdade e a independência necessárias para poder interromper o seu julgamento.

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