As origens dos paradoxos: a complexidade, o desconhecimento e a ocultação ou a eurocacãnia ainda longe da perfeição

Poucas coisas são capazes de gerar consenso na Europa cacânica mas a percepção do discurso paradoxal é uma delas. Há que pôr entre parêntesis a dificuldade do paradoxo numa sociedade cacânica que está já para além disso mas o processo de transformação demora muito a chegar à perfeição da exclusão. Na fase actual da transformação cacânica nota-se essencialmente o cansaço, a velhice irremediável, o regresso à dependência a coberto do novo império depois de deixar de o ser.

No discurso (ainda há uns restos de discurso) corrente dominam os vectores das reformas estruturais, o crescimento austero e o investimento. Subjacente a este arrazoado há a  mistificação sobre as dificuldades postas pelo chamado estado social e pelo problema da oferta. Aparece, algo envergonhado, o exemplo alemão como um exemplo da melhor aproximação à tipificação das bondosas reformas estruturais.

O estado social passou a ser o culpado do envelhecimento demográfico. Bom, se retirarmos completamente algum apoio na saúde e diminuirmos drasticamente os rendimentos do trabalho  até aos limites um pouco para lá da indigência será de esperar um decréscimo acentuado na esperança de vida de forma a rejuvenescer as populações. Para os revolucionários que governam a Europa actual tal é concebível porque estão a calcular que controlarão a revolução.

Um dos paradoxos mais notórios é o discurso que junta uma baixa taxa de emprego, rendimentos do trabalho esmagados e natalidade robusta. A alternativa parcial que tem sido seguida é a importação de populações, primeiro africanas e posteriormente sul-americanas e asiáticas – até do leste europeu – que tem substituído a baixa natalidade. Tudo isto se enroupa com falatório sobre o apoio à natalidade e suas políticas ditas de apoio, imediatamente esburacado pelo apelo à movimentação, primeiro no trabalho, depois do país. mas se há coisa que nunca assustou um revolucionário é a contradição ou o não ajustamento das propostas avançadas. Como se sabe, num revolucionário a realidade ajusta-se à ideia e as próprias ideias são facilmente contorcidas para se ajustarem à teoria.

O outro ponto revolucionário é o crescimento. Não se sabe bem o que impede o desabrochar de tal desiderato, as dívidas soberanas não poderiam impedir tal. Se o dito medrar depende essencialmente da iniciativa privada, os juros actuais batem todos os recordes de nanismo.  Alguns funcionários superiores lá deixam escapar que o desemprego jovem vai continuar a ser alto apesar do volumoso capital que o Sr. Draghi vai pôr à disposição. Enfim, mais um pequeno contratempo.

Outros mais afoitos reclamam por maiores facilidades no mundo do trabalho, ideias não muito distantes das teses da Inglatera da “Poor’s law” onde se afirmava que uma das principais razões para o desemprego é a pouca vontade de trabalhar – talvez seja a única forma de conciliar com salários à beira da indigência com baixo desemprego, um sobrinho do ditado pouco é melhor que nada. Ah, e a necessidade de criatividade, flexibilidade e formação não devem ser esquecidas pelos empregados do presente-futuro – num mundo conformado pelo dinheiro quer criar-se um exército de desprendidos e contidos. aqui a porca volta a torcer o rabo.

Então o problema não é o da oferta? mas então donde virá a procura. Das exportações… espera lá, para onde, para Marte?

Continua a querer negar-se as origens desta crise. Uma delas é o seu carácter cíclico e nada há a fazer – só os crentes do esquecido deus Greenspan é que professaram – mas será que essa malta professa coisa alguma – é que pareciam acreditar que as novas gestões financeiras tinham acabado com as crises. Uma outra e muito mais impostante e também cíclica mas com alguma novidade, é o reaparecimento do excesso de oferta. Quer em quantidade quer em qualidade e variedade. Esta sobreprodução dura há décadas e foi atenuada numa fase pelo endividamento. Não há dúvida que os rendimentos do trabalho estão estagnados ou em perda desde há cerca de quarenta anos depois da expansão do pós-guerra. A satisfação das pretensas necessidades desencontradas da insuficiência de rendimento para as satisfazer foi ultrapassada pelo cartão de crédito pessoal e nalguns países mais desorientados pelo cartão de crédito dos países. Só os que estão num estadio muito mais atrasado é que não padecem de dívidas gigantescas e mais ou menos impagáveis. Mesmo o oriental Japão caiu na armadilha e só não está na frente do palco porque quase toda a dívida está em mãos nacionais, apesar de um artigo da Bloomberg vir na corrente semana a iluminar essa situação.

A capacidade produtiva instalada é excessiva e o desemprego seria ainda mais alto se as habituais redundâncias das mega empresas e dos aparelhos estatais não contivessem números avultados de excedentários. Basta olhar para o castelo financeiro e perceber isso e a tendência para o emagrecimento dos empregados vai persistir por vários anos. O regressado aos lucros lloyds irá continuar a despedis, o atribulado HSBC também e então na luso cacânia nem é bom falar.

Alguns – poucos eu sei – perguntarão se estas afirmações são desconhecidas ou não aceites por quem administra as terras e povos ocidentais. a fácil resposta é que tal é conhecido mas o papel dos capatazes nunca foi de governar, mas sim de capturar o seu quinhão, mais ainda quando as suas funções são o mais redundantes e discricionárias possíveis. Quantos milhares de capatazes superiores poderiam ser dispensados sem inconveniente nenhum para a organização, muito pelo contrário.

A Europa ainda não encontrou solução para a perda das colónias, terras para onde mandou os seus excedentários durante os últimos dois séculos. mais grave, a Europa perdeu o império e passou a integrar mais ou menos voluntariamente o império americano, tentando acreditar no discurso irreal de que há interesses do ocidente – para quem tinha entre as suas filas quem dizia quem nem sequer havia sociedade, é um paradoxo de se lhe tirar o chapéu.

Para já e tristemente, temos que assistir ao lamentável espectáculo dos paradoxos filhos de quem não percebe ou de quem quer ocultar.

Nas horas difíceis lembremos Seneca que afirmava quem quem resiste ao destino apenas se deixa arrastar por ele, mas ele também disse que nem sabe para onde vai nunca apanha ventos favoráveis -também os estóicos caíam nos paradoxos, mas estes são filhos da complexidade. Suspendamos o julgamento, em honra da nossa escola.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s