Das montanhas são altas e o imperador está longe até às montanhas são anãs mas o imperador não está ou uma viagem de Oz passando pela Cacânia até chegar ao estado de Ford

Este vai ser uma ano rico em eleições tal como têm sido os últimos anos em quase todo o mundo. O número de votações tem vindo a aumentar nas últimas décadas e o número de partidos concorrentes também tem crescido. Mas tal como é costume a realidade finta-nos quase sempre e o mais torna-se menos.

Já muitos têm afirmado que o sistema de representação está falido, mas sempre esteve. A legitimação do poder sempre foi difícil e a ontogenia do poder é de difícil destrinça. Durante alguns séculos conviveram duas bases diferentes para a sua sustentação. No ocidente cristão procurou-se refúgio na sacralização do poder. O seu representante estava ungido pela benção da divina providência, local onde se realizava a escolha. Isto resolvia vários problemas, primeiro a escolha que era subtraída à sociedade e mais importante, certificava a representação, eliminando qualquer fosso entre a deliberação e a vontade que a sustentava, eram o mesmo, logo a sua realização era a sua legitimação.

O conceito oriental, neste caso o chinês, era mais subtil nos caboucos do poder. A sua legitimação era também divina mas ex-post e não ex-ante. A sua bondade era certificada pela concórdia na terra, sinal de que os céus também se acordavam com a sua representação. A guerra e instabilidade na terra era a mediação escolhida pelo céu para mudar a sua representação na terra.

Nos dois últimos séculos promoveu-se a laicização do poder voltando-se ao início, o reino do céu não se confundia com o da terra, conceito de aparecimento iterativo no mundo antigo greco-romano. Esta laicização, prima do iluminismo, tinha que evoluir para a racionalização, obstáculo que cresceu até ser inultrapassável desde que o voto mais ou menos universal foi sendo crescentemente abraçado.

Uma outra evolução paralela foi a percepção sobre a necessidade da exposição. No passado, a exposição era remetida nos tempos de acalmia para as cerimónias calendarizadas de exposição do poder. O sobrinho da racionalização tornou o calendário uma sucessão de dias consecutivos de obrigatoriedade de exposição.

Uma outra evolução deriva de um engano auto-alimentado. Na altura em que havia um poder concentrado e autocrático, hobbesiano, pedia-se ao poder inteligente que raramente emergisse, que assumisse um carácter atómico, onde o maior espaço é um vazio atravessado por uma energia. No presente quântico, a energia transformou-se em massa de modo que o poder está de facto em todo o lado e durante todo o tempo. Já não raros feriados cerimoniais a marcar um calendário rico em dias de ausência de poder, agora há dias de poder todos os dias. Só que esta alteração marcada na frequência da emergência do poder não se acompanhou de forma paralela de uma necessidade do mesmo. O poder, agora, é francamente excessivo por comparação com a sua necessidade, logo chegamos à repetida manifestação de um poder inútil, vazio, a energia deixou de gozar da capacidade de se transformar em massa – a Cacânia foi forçada a nascer para preencher esta redundância inútil e caricatural.

Uma contradição adicional mas consequente do que se desenvolveu acima, o poder evoluiu para a deslegitimação auto-promovida ao construir um fosso extraordinário entre o que anuncia que vai fazer e aquilo que realiza. Nas últimas décadas vivemos um compasso de espera do “como se” do país de Oz, o que víamos era uma transfiguração colorida da oligocromia existente detrás da cortina. Isto vem provocando cada vez menor frequência aos espectáculos do pobre feiticeiro e das reuniões com mais ou menos comida e bebida promovidas pelos funcionários ilustres da Cacânia.

Nunca apreenderemos que o poder se comporta como um carro de chassis defeituoso e direcção não assistida, razoável para conduzir em recta, fatalmente destinado ao desastre ao negociar uma curva, mais ainda porque quem vai a conduzir teima em ver numa curva apenas uma lomba na desejada interminável recta. O poder apenas está preparado para preservar, como seria natural

As escolhas dos andaluzes e dos gauleses apresentam uma dificuldade a acrescentar ao que dissemos. por muito maus que tenham sido antes, a confusa percepção é que não vale a pena avaliá-los, votamos neles porque eles estão lá, ou numa fórmula conhecida recentemente, são famosos porque são famosos, ou já agora, a manifestação global do Dr. Bilhim e a sua cresap, a escolha dos mais competentes entre os competentes.

No fundo, nada de muito novo tem surgido nos últimos anos, o poder é tão real como ilusório, tão necessário como inconveniente, tão forte como tão fraco, tão omnipresente como tão ausente, o poder submete-se totalmente à natureza que se encarrega da evolução: a demografia associada e configurada pelos recursos e produção.

A curva é essa, o trabalho de casa que a natureza nos encomendou é esse. Até agora a TINA apenas descobriu Ford depois da Cacânia mas as noites para passar debaixo do esburacado palácio de cristal onde se reúnem os mais ilustres cacânicos só serão razoavelmente agradáveis para alguns. A maior parte ficará à chuva, será que vai atirar as telhar que caíram lá para dentro e acabar por derrubar a porta giratória depois de eliminar o porteiro? É que Ford ainda não acabou o dicionário da novilíngua e a TINA está a envelhecer.

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