Depois do cabo da boa esperança, o cabo da grande cacânia ou a diferença entre ser o dono do barco e o embarcadiço á força do “Flying Dutchman” mais doido do que nunca porque sabe o que aconteceu a Jasão

Nas sociedades crepusculares o caminho é único, não por falta de alternativas mas por falta de condições para ver ou o conhecido, de noite todos os gatos são pardos. Quem não sabe fazer nunca poderá escolher. Sabe-se que quem não conhece para onde ir nunca apanha os ventos favoráveis e se o piloto não é dono do barco a situação de indefinição aprofunda-se. A europa cacânica não sabe para onde ir e não tem dono, talvez melhor, o dono não se quer apresentar ou até talvez tenha sido eliminado. O melhor monarca hobbesiano é uma múmia cimentada num pedestal emitindo um discurso novilinguístico de inacabada decifração.

Curioso, que um continente envelhecido, os capatazes mais ou menos senis e que já não escutados pelas massas já cansadas de nem descobrirem o início da vereda que conduz ao castelo, se dediquem à juvenil arte de surfar as ondas que por hábito ocultam a direcção da corrente dominante.

É duvidoso que os gastos mercados dominem o que quer que seja, os mercados são construções humanas, logo de duração e alcance limitados. A condição humana sofre a influência mais silenciosa mas férrea da sua pertença à natureza.

Os mercados querem crescimento e rentabilidade de capital, duas coisas cada vez mais liluputianas na europa para não falar da presciente lusitânia, o farol da cacanização.

A rentabilidade do capital tem permanecido estável durante os últimos cento e cinquenta anos, com os óbvios picos e vales desencadeados por guerras alargadas. A análise cuidada da evolução dos produtos internos brutos mostra uma correlação muito maior com o crescimento demográfico do que com o badalado crescimento tecnológico.

O capital no futuro a médio-longo prazo vai procurar os sítios onde o par crescimento populacional e satisfação de um pacote que conquistou o estatuto de básico mais dele necessita e mais o pode recompensar, a áfrica toda e ainda uma enorme parte da ásia e da américa hispânica. De resto o crescimento norte-americano vai continuar a ser superior ao europeu porque é o incumbente, goza do privilégio excepcional de emissor da moeda imperial e domina totalmente a máquina de guerra e todo comércio associado de lucros incomuns. À europa não cabe a melhor parte de nenhuma destas fatias, cabe-lhe ainda um bom resto apesar de tudo. À europa cabe aquilo que a natureza lhe destinar apertada pela negociação que americanos e chineses lhe impuserem.

O surfar do centro europeu sobre as ondas do petróleo a preço de desconto e de capital a custo zero terminará, como é da natureza das ondas, na praia tão próxima. Quando as massas pagam o bilhete para embarcar num barco que os deita à água logo depois, com uma prancha manhosa, o murmúrio na praia sobe de intensidade, o preço é muito caro, a viagem não vale a pena.

Pior, percebe-se que o recreio não é definido pelo vendedor da viagem de barco. Quer a necessidade dos produtos, quer a valorização do trabalho, quer a distribuição que cabe ao capital e ao trabalho são todas variáveis de grande amplitude, algumas até à sua eliminação quase total, mesmo a necessidade de cuidados médicos, algo que constituiria o extremo de pouca variabilidade por dependente das leis naturais é de uma discricionaridade espantosa. A europa percebe que está a perder a capacidade de definir a sociedade, as suas necessidades, a hierarquia dos desejos. A europa infantiliza-se, melhor, como não consegue pôr o relógio a andar para trás, cacaniza-se. Esta incapacidade crescente em protagonizar a definição da sociedade está a ser percepcionada pelo mundo lateral, mais jovem, até antes receptáculo de exportação das massas inúteis dos impérios, depois, ele próprio e até agora, emissário de mão de obra fresca e a custo quase nulo; a senilidade europeia é pornográfica.

As massas da periferia infantilizada começam a desconfiar que o patrão do barco não é o seu proprietário, que não sabe para onde vai, que não vale a pena substituí-lo pelo contra-mestre, outro da mesma igualha. O outro barco que ainda é um pouco diferente é o navio-almirante, único com poder de fogo que atemoriza, logo ainda reúne.

Qual o interesse de embarcar nos barcos secundários para além de manter o emprego e os confortáveis ordenados dos marinheiros-gestores de água doce – é verdade, eles também não sabem fazer mais nada, lá aumentava mais o desemprego, conforme se tem amplamente visto, todo o seu saber residiu na construção da teia, algo sempre muito fácil de reconstruír e sempre susceptível de redução dos seus nós.

Enquanto que o discurso do chá pré- cacânico sobre o crescimento, sobre a austeridade – que saudades da austeridade expansionista – sobre a TINA for vendável tudo continuará como dantes à espera que a mãe natureza se encarregue de fazer uma rearrumação, com a poieirada inerente.

Até lá que ainda demora, a reivindicação possível é a diminuição dos capatazes – gestores, muito caros e que desperdiçam muito dinheiro e a diminuição dos patamares da representação – já não é mau. O mais inconveniente é o continuar da captura do melhorzito da periferia pela sub-centralidade germânica até à recondução deste povo á loja das caldas – e dos espanhóis a las bodegas e tutti quanti…

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