O paradoxo pirrónico da cacânia: da suspensão do ser até à consequente vacuidade

A história continua a desenrolar a sua curva e a revelar algo daquilo que nos vai apresentar mais à frente. A curva funciona como um teste de stress mas com maior potencial.

Na luso-cacãnia – e na euro-cacânia – há eleições nos próximos meses. Pode haver eleições na cacânia? Poder pode, mas com um enquadramento curioso, cacânico. As eleições servem para perpetuá-la, logo são e não são ao mesmo tempo. Certamente que é difícil operar esta arte, algo como celebrar uma missa e o vigário avisar no preâmbulo que tal para nada serve. A reacção dos assistentes será de desânimo e incredulidade se ainda não tiverem completado a sua aprendizagem do não ser, a entidade máxima. Tal religião implica um assentimento ainda mais completo do que aquele defendido por Newman, o bispo católico convertido na Inglaterra vitoriana.

As eleições são apontadas como um sinal duma governação democrática. Pode haver democracia na cacânia? Poder pode desde que esteja interiorizado a inutilidade  / impossibilidade da governação. A democracia cacânica implica chegar ao fim da história, ao “governo” global onde nada pode existir fora dele.

Pode haver governo cacânico? Poder pode, desde que não exista por já não ser necessário e aqui a ausência é a última prova da sua existência, um pouco como as figuras de polícias de cartão colocados em alguns sítios mais perigosos das estradas do Japão do fim do século.

Pode a cacânia existir? Poder pode desde que não se sinta a necessidade da sua existência por habitar cada um.

A luso-cacãnia via à frente da euro-cacânia, paradoxal emergência do quinto império. A elite local á a mais avançada no processo de cacanização geral a que só escapam o poder imperial – com bolsas de cacanização – e o seu desafiante, o velho império do meio, ainda não afogado depois de ter conseguido evitar o enterro da sua moldura confucionista, ameaçada pelo interregno maoísta. O curioso é a contradição entre a postura do império e o seu devir mais lógico, a cacanização, prole dilecta dos seus pais, o mercado e a globalização. Aqui o paradoxo é entre a aceitação da futilidade da governação e a maximização da sua força por trás das cortinas, claramente descortinada pelas negociações secretas para o assetimento dos tratados comercias trans- atlântico e trans-pacífico.

A elite luso-cacânica tem medo, ou melhor, já está impossibilitada de descortinar a oportunidade gerada pela crise, corolário lógico, na cacânia não há crises nem oportunidades. A elite luso-cacânica sofre quando muito de cefaleias, tão frequentes na organizadora dos chás e jantares frequentados pelo homem sem qualidades. As cefaleias têm origem no medo de falhar as responsabilidades de uma tarefa que já não se vislumbra, são as cefaleias do vazio.

Os debates que aí vêm sobre as eleições serão uma manifestação desse mal-estar da vacuidade antes de se atingir a perfeição do não ser. Aparentemente, os gregos estão à beira de ultrapassar a luso-cacânia neste processo de transmutação. Na Grécia iremos vislumbrar a cacânia pobre talvez ainda antes da Lusitânia, na França aperceberemos a cacânia rica.

Esta transmutação tem pernas para andar porque se serve do paradoxo como moldura da sua existência transmutante. O paradoxo é sempre a forma mais resistente de afirmação até atingir um cansaço fatal. O paradoxo é a reclamação de menos governo para melhor eficiância dos mercados e a exigência dos mercados do poder dos governos, como sempre assim foi – os chamados custos de transacção dos economistas que com a sua demência, induzida ou espontânea, transformaram esses custos numa não existência.

A cacânia tem como paradoxo primário a compatibilização impossível entre governo nacional, democracia e globalização, como paradoxo secundário mas igualmente limitante, a compatibilização entre dívida, crescimento e demografia negativa – na cacânia já Musil indicava que a maternidade era origem de cefaleias e de pulsões contraditórias entre a juventude eterna e a maternidade, o primeiro sinal da morte.

A cacânia vem aí e tanto pode durar uma eternidade como apenas uma geração. Um bom céptico suspende aqui o seu julgamento.

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