Na periferia não há ilusões perdidas, há ordens para ser cumpridas, passa-se o tempo à espera que passe e dá-se pontapés nas pedras das ruas a abafar o ruído das raposas no galinheiro

As sociedades registaram muitas evoluções consequentes à divisão do trabalho mas uma das mais relevantes foi a delimitação mais clara entre o núcleo e a periferia. No desenho de uma máquina, na sucessão de actos conducentes a um produto, na acumulação orientada de saberes para derivar uma premissa há tempos e zonas centrais e períodos e actos periféricos e laterais. Será sempre impossível perceber se Adam Smith não realizou que a divisão de trabalho não poderia promover desenvolvimentos equilibrados ou que Ricardo não entreviu que o uso das vantagens comparativas é um processo dinâmico, aberto a movimentos de boomerang que podem contrariar as premissas, principalmente quando os resultados a médio-longo prazo sobre  o desenvolvimento de capacidades e a formação de capital fixo são tão díspares – produzir vinho e produzir têxteis levam a duas evoluções muito diferentes, Ricardo não viu, ou viu e escondeu?

Portugal foi empurrado, mas com a sua colaboração activa por cansaço dos trópicos, para a periferia da ponta europeia e vem perdendo para o centro europeu desde os últimos três séculos. Conforme a regra, a elite de uma periferia entra num processo lento de deliquescência e acaba por desaparecer transformada numa trupe de funcionários-capatazes.

O processo de centrifugação não parou aqui mas pode ser sempre atenuado pela dinâmica da massa crítica, claramente uma das variáveis que têm ajudado a vizinha Espanha. É certo que não é imediato reunir uma teoria explicativa para o melhor desempenho dos nórdicos, os outros grandes periféricos, embora o sucesso escandinavo tenha sido pontuado por inflexões dramáticas, com períodos de fome generalizada que levaram á emigração que veio a povoar e constituir os estados centrais da região fronteira entre os EUA e o Canadá.

Uma elite transfigurada como a lusa mais facilmente embarca em aventuras de deslegitimação adicional. Fomos sempre um dos mais entusiastas da transferência de poderes, fomos um dos mais entusiastas da adesão à moeda única. Parte deste infantil e suicidário regozijo adveio de uma ignorância mais ou menos geral das elites actuais, que após a declaração do fim da história quiseram acreditar como  desnecessária a actividade da reflexão sobre o passado. Mesmo assim impressiona a facilidade com que largamos a capacidade de criar dinheiro, só entendível no contexto alargado de demissão pós segunda guerra mundial. Se estivéssemos atentos, um dos sinais mais eloquentes desta demissão – auto-anulação transparecia do envio mais ou menos voluntário das reservas de ouro para os cofres dos bancos federais americanos.

O escândalo da passagem de dados de espionagem alemã para a NSA americana que nada têm a ver com a repetida ad nauseum por acéfala luta contra o terrorismo constitui outro deprimente exemplo do rapto das elites europeias pelo império americano. Ainda estamos a pagar os custos da última grande guerra europeia.

Em Portugal, 2015, lidamos com esta dupla amputação, uma elite que se deixou caricaturar e de muito baixa qualidade por falta de uso – décadas de irresponsabilidade própria de quem só recebe ordens.

Aqui se fundamenta muita da apatia lusitana que já não tem o luxo das ilusões perdidas nem o doce engano da segurança de quem recebe directivas adequadas. A crise europeia tem posto em relevo este duplo desconforto. Não se trata certamente de incompetência pura dos funcionários europeus do presente, realmente a incompetência está mais atrás, nas escolhas impossíveis dos funcionários em período de retirada que ainda tinham sofrido directamente os estilhaços da guerra – o projecto é impossível, o desenho irremediavelmente defeituoso para todos menos para o centro.

A isto há que acrescentar o domínio completo pelo mundo financeiro, algo que se veio a construir lentamente e que atingiu um estádio muito avançado quando a formação de dinheiro passou a estar debaixo do total controlo de alguns poucos que com o tempo passaram a apresentar com toda a exuberância as consequências mais funestas do poder absoluto, a postura de inimputabilidade e da negação – veja-se a narrativa sobre a crise das dívidas soberanas e privadas e a forma como tem sido tratada. Esta crise, muito mais do que qualquer outra coisa, veio exibir o colapso da imprensa como quarto poder e o enterro da democracia partidária no modelo que conhecemos.

O “As if” anglo-saxónico vai ser testado mais uma vez, até agora, alguma qualidade decisória e alguma limitação do alcance das opções tomadas sobre a vida das sociedades (um dos mais eficazes limitadores dos prejuízos ao longo da história humana) têm permitido saídas mais ou menos airosas. A grande dificuldade origina-se no afã do império em garantir por bom período a sua supremacia e das suas mega-empresas, contando para isso com a colaboração activa dos funcionários que foi colocando deste lado do oceano e que foi posicionando no lado asiático do pacífico. É esta grande força que constitui a maior fraqueza porque as consequências do desastre podem ser de tal forma que impliquem um conflito.

A ambição desmedida foi sempre a perda dos poderes sucessivos, claro que determinar aquilo que é desmedido não é imediato nem consensual, não há uma TINA para avaliação dos desmesurado. Aquilo que se joga na definição dos poderes do BCE e dos outros bancos centrais e nos ameaçadores e secretos acordos de livre comércio tem talvez demasiado alcance, o erro vai ser inevitável e pode ser perigosamente grande. A globalização ditatorial e forçada irá descobrir que aquilo que lhe é mais próximo é o magma vulcânico, hiper-destrutivo e que quando arrefece produz cinza e algumas rochas amorfas, só muito depois, milénios, o solo até se pode tornar muito fértil. No magma está tudo, nada se utiliza.

Pode uma mega-elite inimputável e sem contrapoder ter qualidade para lidar com a situação será uma pergunta que a periferia não fará – veja-se a qualidade da imprensa portuguesa – a periferia aguarda ordem para mover ou para aguentar, nesse intervalo estupidifica e dá pontapés nas pedras das ruas.

O que pode ser um país de criados e capatazes sem ilusões? Apenas uma região, aquilo em que nos tornamos, embrulhado num discurso tão leve como o dos servos.

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