A contradição como salvaconduto para a sobrevida do poder ou para já Nicolau ganha a Frederico, no fim teremos sempre as pedras e as fisgas

Nesta metade ocidental do mundo e nos últimos cem anos, assistimos à dominância da inteligente transfiguração dos fundamentos do poder, desde a tradicional mistura de sangue com riqueza para a aparente tiragem à sorte da democracia baseada na representatividade e na territorialidade, manobra de escape para acomodar a acumulação do saber dos séculos anteriores, mais presente e emproado pelo iluminismo. Mas consequente ao saber está o esquecimento e o engano.

O saber ocidental sempre lidou mal com a contradição, com o tratamento da exclusão do terceiro. Só o conforto derivado do refúgio na sombra que a matemática procurou, evitou que o raciocínio ocidental atenuasse a desilusão de se confrontar com o falhanço de Russell e com o sucesso de Godell e do seu teorema da incompletude.

Numa extensão algo larga, podemos dizer que Godell levou ao triunfo, pelo menos até agora, do conhecido “como se” anglo-saxónico e à derrota do pensamento franco-germânico. A afirmação do ser deixou de poder ser espelhada no devir hegeliano do estado, passou a repousar na tautologia.

A evolução do poder não deixou de receber estas influências. A tautologia, melhor, a auto-referenciação, passou também a guiar a existência do poder. A auto-referenciação é obviamente muito poderosa e sólida enquanto que tal for possível, só que é quase impossível identificar os momentos em que a auto-referência se esgota. A auto-referência procura a eternidade pela inclusão e anulação da contradição.

O poder ocidental  dos tempos presentes tem três camadas principais de apoio: a  financeira, a  militar-financeira e a civilizacional, sendo esta de longe a mais fraca, debilidade que se percepciona de forma mais clara na demografia e na arriscada eliminação da nacionalidade dos excedentes periféricos.

A financeira atravessa um momento curioso, com sinais opostos, um de grande vigor e outro de grande fraqueza. O primeiro apercebe-se na evolução da quota parte que arrecada do lucro do capital, sempre em crescendo nas últimas décadas, algo que muita gente tem esquecido. Apesar dos protestos de muitos pela crescente importância do mundo financeiro já datarem desde o início do século passado, a verdade é que nessa altura a componente financeira do produto ainda estava abaixo de 10% do PIB, mas no momento presente já ultrapassou os 15%. Mais, a parte do capital também voltou a ultrapassar os 50% do rendimento nos últimos dez anos, depois de um valor inferior a 45% nos anos sessenta. O sinal da debilidade deriva das expectativas de retorno do capital para o futuro a curto e médio prazo, de volta aos valores á volta dos 3 a 4% e mesmo isto á custa do muito maior retorno dos super-acumuladores de capital que vão conseguindo retornos entre os 7 e os 10%, sempre à custa da informação privilegiada. Aqui o controlo / captura dos reguladores foi essencial, uma contradição típica que assegura cada vez maior liberdade com cada vez maior regulação, com o brinde nada desprezível de ter criado a aparente necessidade de um exército de funcionários ditos muito indispensáveis e competentes, logo muito bem pagos, exemplos típicos dos gestores, advogados e banqueiros. A contradição brilhante aproveitada pelo mundo financeiro foi a criação do seu regulador, o banco central, garante do seu domínio sem os incómodos da satisfação das massas – não é preciso sujar as mãos a fazer a massa dos brioches. a desmaterialização do dinheiro, a quase exclusiva criação de dinheiro apoiado em dívida cimentou o poder quase absoluto. A sua contradição fulcral é a colisão entre o seu domínio sufocante e a sua invisibilidade procurada – um poder que não se sacraliza pela cerimónia pública tem sempre muitas dificuldades em momentos de curva, não pode falar.

A componente militar-financeira está com um vigor extraordinário, mais uma vez á custa da região do médio-oriente e em menor escala o continente africano. Esta componente tem evoluído para outras formas de armas, mais apoiadas na vigilância / espionagem que se desenvolve sem freios e que vai evoluindo para o antecipado “big brother”. Fica por saber se existe algo de autónomo e viável para além do sistema de espionagem montado pelos anglo-saxónicos dos hemisférios norte e sul, mas a subserviência franco-alemã não fica nada atrás da que a luso cacânia exibiu na altura das viagens entre o afganistão e cuba. A segurança máxima e filha da contradição foi a criação da figura da nuvem para armazenamento de informação, realmente não uma nuvem inocente e passageira do mundo, mas algo enterrado muito seguramente em qualquer bunker dum estado do oeste central americano. A grande contradição é o seu fundamento radicar na sua insuficiência, pede-se cada vez maior segurança por que esse poder não consegue, fundamentalmente não quer garantir essa protecção. Quanto tempo consegue o furtivo incendiário justificar o gasto nos bombeiros é uma pergunta de difícil resposta mas para já a inteligente mistura de terror, hipervigilância e infantilização tem conseguido levar o barco a bom porto. O complexo militar-financeiro consegue o prémio de justificar cada vez maior estado no centro, permitindo-lhe o nacionalismo ao mesmo tempo que promove o inescapável internacionalismo da periferia anã e infantil, incapaz de se defender dentro do enquadramento nacionalista. Esta ambivalência garante-lhe para já todo o sucesso até á emergência de um poder alternativo asiático mas de duvidoso nascimento.

A civilizacional repousa numa herança muito antiga, dita greco-judaica-cristã, uma sopa de pedra que foi sempre mal cozida porque a sua ligação dependia mais do outro, o mundo hindu-budista, do que dela própria. Esta referência tem evoluído para posições de bloqueio quando se pretendeu atribuir á vertente anglo-saxónica a sua emergência mais aperfeiçoada e última, o conhecido fim da história. Esta idealização ia a par com a globalização, a natural consequência do fim da história, com a as periferias a sofrerem um processo de descoloração e desestruturação para mergulhar no superaquecido centro que tudo consome. Esta globalização é também uma forma interessante e com manifestações opostas de lidar com os problemas, atrofia e desnata as periferias para salvaguardar a satisfação dos apetites do centro, cada vez mais voraz a uma mesa que parece mais desguarnecida. A fragmentação da importância dos poderes permitiu anular os efeitos indesejáveis de oscilações populares que passaram a votar em alternativas muito estreita, a globalização consegue facilmente acomodar qualquer devaneio entre o hamburger e o frango assado, ensaia o certificado de óbito daquele que ainda não morreu. O processo totalitário está em curso promovido por capatazes revolucionários que numa hábil utilização novilinguística,  carimbam de reaccionários e populistas todos os outros, os novos demagogos do passado.

Lidar com este programa implica voltar aos bons velhos tempos da sangria para melhorar a inflamação pela anergia e fraqueza. Para isso a presença de capatazes fiáveis que garantam a colecção de impostos que vão pagar os juros do capital emprestado é decisiva, capatazes esses que também asseguram a continuidade dos empréstimos, o regresso aos mercados – aqui Picketty tem a sua melhor contribuição, se um estado precisa de dinheiro que lance impostos e não que contraia dívidas, os impostos serão a melhor garantia de moderação no futuro, as dívidas como se viu nunca o foram.. Mais uma vez é necessário lidar com a contradição dos sucessivos pagamentos serem incapazes de abater á dívida que continua a crescer. Tudo isto é temperado pelo discurso das reformas que é sempre apoiado em teorias que não são verificadas na realidade o que as tornam mais robustas porque permitem explicar tudo e o seu contrário.

O extraordinário prec globalizante está a pouco de conhecer a vitória total. Como já mais vezes se citou, Tocqueville receava a infantilização que viu nascer nos USA como limitante a gerar as energias que pudessem ser necessárias. Se a globalização se cumprir na totalidade antes do choque de poderes, restará como motor da história a velha raridade de recursos. Não discutiremos ideias, lutaremos por água, terra e alimentos. Cumprir-se-á o destino, voltaremos, á bomba, á idade da pedra.

Duas leituras recomendadas: “the secret of the temple” e “la haine de la démocratie”.

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