Propriedade sem controlo é escravatura, controlo sem propriedade é tirania e no intervalo há a comissão dos capatazes e nas galerias ninguém ouve nem vê o suficiente para se entender

Nas famílias de décadas passadas reuníam-se três gerações, com grande frequência. Na altura das demoradas conversas segregavam-se muitas vezes os mais novos, quer para obter maior liberdade na troca de opiniões quer para os libertar para brincadeiras mais ajustadas á idade. Quando, com o crescimento, alguns da geração mais tenra eram admitidos nessas conversas mais reservadas percebiam que lhe eram outorgados os selos do entendimento e da responsabilidade, fundamentais no tratamento da informação que iria ser trocada. A vida adulta dava os seus primeiros passos.

A ocultação da informação é contemporânea da formação de qualquer sociedade e quanto mais elaborada e mais antiga, mais bocados da sua natureza são reenviados para áreas de esquecimento, de ocultação e de fingimento, o refúgio último da não compreensão. Quando este sector da vida atinge alguma densidade e quantidade reaparece na forma de teatro, quer em drama quer em comédia, via elegante para preservar e não explicitar tudo. Nas sociedades muito cansadas, o teatro torna-se a última via de continuidade até declinar inevitavelmente e infantilizar-se até ao seu desaparecimento. Nos últimos estádios, o teatro pode ser visto por todos, as segundas e terceiras leituras seguem com à vontade com as primeiras mais infantis. Só os mais esclarecidos dentro dos mais velhos aguentam a auto-referenciação na forma do como se.

A comédia europeia é servida em vários níveis para diferentes espectadores, os mais bem colocados  conseguem até ver onde está o ponto, os piores mal distinguem as falas e não identificam todos os comediantes. Além disso, só quem chegou primeiro, resultado da sua pertença ao núcleo dos convidados especiais do círculo interno é que poderão ter tido a ocasião de consultar a ficha técnica. Os sentados á frente não se descompõem a comer pipocas e a beber colas, vão satisfazer a fome e a sede depois do espectáculo, os da periférica galeria aproveitam para substituir o inacessível jantar por rebuçados, chocolates e similares. É verdade que a ficha técnica passou também a constituir um exercício de charadas, o director não aparece e o produtor esconde-se atrás de um nome empresarial que ninguém parece conhecer, só os actores mais antigos e  de primeira grandeza parecem perceber quem são os mandantes. Na verdade, os proprietários do teatro já não o controlam, uma forma civilizada de escravatura.

O teatro europeu continua a pretender exibir as grandes reformas estruturais que serão a antecâmara de mais salões de riquezas e de progresso, mas as grandes reformas são como a galeria dos espelhos, realmente apenas se reflectem mas nada contêm. Há a ilusão sonhada dos produtores de controlarem aquilo que não têm, a forma elevada da tirania, outra comédia. Não há nem houve nunca governo algum, Lao descobriu-o bem cedo. As famosas reformas são de dois tipos, as mais imediatas, de concepção das raposas, com redistribuição habitual de recursos financeiros. Há ainda muito para fazer, pode-se tirar ainda bastante de um lado e dar ao outro, muitas formas de vida podem evoluir, basta pensar na ociosidade prisioneira da juventude árabe em Belém até á errância contínua quase browniana em busca da sobrevivência de Bombaim. A periferia europeia tem ainda tanto para contrair, para empobrecer aguentando por mais algum tempo os superavits do centro – hoje foi divulgado que o alemão e o holandês caminham para 10% e isto apesar do produto potencial ainda estar cerca de 20% do produto real. As verdadeiras reformas estruturais, o núcleo do desiderato é a irrelevância, o corolário desejado, louco e revolucionário, já os capatazes tinham feito isso com o agrimensor do castelo – enquanto tal desmesurado fim não chega, de tal grandeza que perturba, os capatazes descem á aldeia cobrar as comissões e beber a cervejas para animar a algo apagada líbido, as raparigas do povo já não o que costumavam ser, a procriação desce a olhos vistos, mesmos os teutónicos exuberantes e gordurosos só fazem 1.3 filhos a cada fêmea.

A dívida terá finalmente o último préstimo, passa da menos importante renda para a mais decisiva posse. O grande trabalho já está feito, todos querem é condições para contraír dívida, lá se vai o conselho de Adam Smith sobre a perigosidade das dívidas soberanas, mas isso faz parte da bíblia renascida do neoconservadorismo, que de conservador só tem o nome. Até os infantilizados gregos é isso que querem, autorização para continuar a contrair dívida para rolar a mais antiga, foi esse o trabalho herculeano de Maria Luís, endividar-se enquanto é tempo. A democracia prova a tese de humano, demasiado humano, gera a criança. A democracia sem jornalismo adulto e independente – mas como era possível tal haver – gera a decadência política antecipada por Tocqueville.

Safa-se o império, convenientemente já para lá da democracia, com a sua agenda militar e mercantilista dos tratados transatlântico e transpacífico.

Sextus recomenda “Unstoppable” de Ralph Nader, ou o sonho de remover os revolucionários neoconservadores e substituí-los pela aliança do conservador dos fundadores com partes do optimismo impenitente dos liberais.

Talvez a europa se salve quando enterrar a CE, mas a dificuldade de remover milhares de capatazes, ainda por cima em parte pagos pelo império, a única entidade consciente adulta – o império do meio renasceu da crisálida, ainda está tenro e talvez nunca cresça o suficiente, ta como da primeira vez – é de monta. O povo ainda os aclama, pelo menos durante mais uma geração, tempo largo para vender a novilíngua e o duplipensar até à estupidificação irreversível.

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Uncategorized. ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s