A grécia inventou a democracia, a europa central o processo e o castelo, os anglo-saxónicos o “as if”, os burocratas a imbecilidade activa, os financeiros a corda para os enforcamentos, leiam Swift que é bem bom

Os Cafeínicos

Provavelmente, mas está longe de ser certo, iniciamos uma das grandes curvas da história, lenta a negociar, cega sem deixar ver o que vem a seguir – nem houve fim da história, mas o historicismo está morto.

O referendo da Grécia marca mais uma das etapas do fim do regime representativo, pelo menos nesta versão. Os exemplos acumulam-se sobre as más opções que são tomadas nas alturas mais decisivas das escolhas, certamente sempre contrariadas pelos incumbentes que, satisfeitos, proclamam a bondade de terem sido escolhidos. A maior parte das vezes nem de escolhas se trata, como ontem aconteceu, a não ser da última vontade de fazer uma careta aos palhaços ricos do centro antes da queda habitual do palhaço pobre.

A escolha é quase sempre fatalmente viciada pela manipulação das alternativas, sempre trabalhadas e desfiguradas por quem pode controlar, pelo menos parcialmente.

Não é fácil saber se ontem a fundamentação…

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A grécia inventou a democracia, a europa central o processo e o castelo, os anglo-saxónicos o “as if”, os burocratas a imbecilidade activa, os finaceiros a corda para os enforcamentos, leiam Swift que é bem bom

Provavelmente, mas está longe de ser certo, iniciamos uma das grandes curvas da história, lenta a negociar, cega sem deixar ver o que vem a seguir – nem houve fim da história, mas o historicismo está morto.

O referendo da Grécia marca mais uma das etapas do fim do regime representativo, pelo menos nesta versão. Os exemplos acumulam-se sobre as más opções que são tomadas nas alturas mais decisivas das escolhas, certamente sempre contrariadas pelos incumbentes que, satisfeitos, proclamam a bondade de terem sido escolhidos. A maior parte das vezes nem de escolhas se trata, como ontem aconteceu, a não ser da última vontade de fazer uma careta aos palhaços ricos do centro antes da queda habitual do palhaço pobre.

A escolha é quase sempre fatalmente viciada pela manipulação das alternativas, sempre trabalhadas e desfiguradas por quem pode controlar, pelo menos parcialmente.

Não é fácil saber se ontem a fundamentação do resultado era robusta ou não. Aparentemente sim, votar não com os bancos fechados é próprio do desespero, da mesma magnitude dos irlandeses de Swift aconselhados a comer os filhos. Mais tradicionalmente, qualquer livro de histórias antigas relata a saída habitual dos miseráveis endividados e desempregados, a venda dos filhos, a prostituição das mulheres e talvez os gregos sintam que estão no limiar desse estado.

Até se compreende o resultado porque outro seria de certo modo ratificar o delírio e gatunagem dos últimos trinta anos na Grécia. Esse é , aliás, o risco que corre a velha Europa nos próximos tempos, a confrontação com a ratificação da trupe enorme de capatazes vendedores da banha da cobra, vendedores da segurança nacional ao endividarem todo um país e obviamente incapazes de rapidamente varrerem para debaixo do chão toda a porcaria acumulada nestes trinta anos.

É curioso que a queda de um regime inviável e ameaçador como os regimes comunistas se tenha seguido pela instauração de regimes cleptocráticos e desvairados. Muitas vezes os vitoriosos sabem como infligir a sua perda por demasiada ambição, nunca leram a arte da guerra. Enfim, deslumbraram-se.

Estes capatazes esperam sempre escapar ao chicote e ao pontapé da história mas nada está perdido, o que é preciso é resiliência, ah que grande palavra da treta gesto-económica, verdadeiramente a “dismal science”.

As sociedades vão perfurar, pressionar, encolher até encontrar uma saída. Até lá vai haver muita destruição. A duração deste tempo será de uma a duas gerações, tempo suficiente para o desaparecimento de alguns povos, fugitivos das agruras das periferias para as frialdades dos centros.

Nunca foi possível arranjar emprego para toda a gente, sempre houve muita dívida, mas agora há algumas diferenças, as três principais é que se morre devagar – ou pelo menos era assim até agora – muito devagar, procria-se pouco, muito pouco e a dimensão da dívida é muito grande, assustadoramente grande ao levar em conta que cresceu já no meio de um ambiente de altas extorsões / impostos. Como é que os capatazes conseguem retirar o dinheiro suficiente para azular parte dos grandes vermelhos dos livros? Vai ser muito difícil, muito difícil, mais ainda porque esses capatazes promoveram a glorificação dos mercados e do crescimento e ajudaram ao enterro dos contextos, os grandes limitantes, em todos os sentidos das sociedades. Uma sociedade sem contexto é mais livre para ser desenvolvida e espremida, é mais vulnerável perante a contracção. Como justificar sem exibir força  uma extorsão elevada numa sociedade a activamente a destruir o contexto – verdadeiramente, se “there is no such thing as society” porque é que pago impostos para além da manutenção da polícia e do exército, para pagar despesas que outros assumiram, para voltar a ir aos mercados, mas eu não quero ir aos mercados para nada, “só por cima do meu cadáver”.

Pior, os capatazes não perceberam que o modelo de desenvolvimento global que escolheram só é viável com uma das duas saídas, uma estupidificação em massa e profunda – mas como vender banha da cobra a débeis, a compra da mesma pressupõe uma ambição acima desse nível seguro de estupidez – ou uma sociedade oriental onde o conceito de vida seja um interminável jogo onde os contrários não são percebidos como verdadeiramente diferentes, algo muito longe da vivência da metade ocidental do mundo.

A representatividade falhou porque tinha de falhar, muitos tinham verificado isso, desde Platão até ao amaldiçoado Nietzche. Os anglo-saxónicos tinham conseguido lidar com este falhanço com a forma hábil do “as if”. Mas tudo tem um prazo de validade, algo tem de morrer mesmo para renascer de forma um pouquito diferente.

A crise da representação tem no entanto um efeito com grande potencialidade, a humildade. Se não é verdade que a representação possa continuar a fundamentar-se na complexidade da administração, talvez a única ingenuidade de Tocqueville e a sua metodologia de escolha é demasiado vulnerável á manipulação e caciquismo com a quase inevitável escolha dos piores entre os piores – a elite dos capatazes europeus é absolutamente assustadora – a humildade advirá da apreensão que não temos equipamentos para grandes planeamentos ou legislações, regressemos ao nível mais humano da administração mais local, mas com verdadeira autonomia, não aquela que os bruxelenses sonharam para o seu total domínio, as regiões como caixas postais das suas deliberações.

Como a biologia nos ensina, a imagem que Sextus mais aprecia, a riqueza dos genes só foi possível pela individualização das células e mesmo da compartimentalização dentro das células, ou o exemplo da fisiologia, a comunicação entre células faz-se de formas passiva, activa e facilitada, sempre com portões.

Até lá, queimemo-nos no grande magma enlouquecido, disfrutemos do último “as if”.

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Propriedade sem controlo é escravatura, controlo sem propriedade é tirania e no intervalo há a comissão dos capatazes e nas galerias ninguém ouve nem vê o suficiente para se entender

Nas famílias de décadas passadas reuníam-se três gerações, com grande frequência. Na altura das demoradas conversas segregavam-se muitas vezes os mais novos, quer para obter maior liberdade na troca de opiniões quer para os libertar para brincadeiras mais ajustadas á idade. Quando, com o crescimento, alguns da geração mais tenra eram admitidos nessas conversas mais reservadas percebiam que lhe eram outorgados os selos do entendimento e da responsabilidade, fundamentais no tratamento da informação que iria ser trocada. A vida adulta dava os seus primeiros passos.

A ocultação da informação é contemporânea da formação de qualquer sociedade e quanto mais elaborada e mais antiga, mais bocados da sua natureza são reenviados para áreas de esquecimento, de ocultação e de fingimento, o refúgio último da não compreensão. Quando este sector da vida atinge alguma densidade e quantidade reaparece na forma de teatro, quer em drama quer em comédia, via elegante para preservar e não explicitar tudo. Nas sociedades muito cansadas, o teatro torna-se a última via de continuidade até declinar inevitavelmente e infantilizar-se até ao seu desaparecimento. Nos últimos estádios, o teatro pode ser visto por todos, as segundas e terceiras leituras seguem com à vontade com as primeiras mais infantis. Só os mais esclarecidos dentro dos mais velhos aguentam a auto-referenciação na forma do como se.

A comédia europeia é servida em vários níveis para diferentes espectadores, os mais bem colocados  conseguem até ver onde está o ponto, os piores mal distinguem as falas e não identificam todos os comediantes. Além disso, só quem chegou primeiro, resultado da sua pertença ao núcleo dos convidados especiais do círculo interno é que poderão ter tido a ocasião de consultar a ficha técnica. Os sentados á frente não se descompõem a comer pipocas e a beber colas, vão satisfazer a fome e a sede depois do espectáculo, os da periférica galeria aproveitam para substituir o inacessível jantar por rebuçados, chocolates e similares. É verdade que a ficha técnica passou também a constituir um exercício de charadas, o director não aparece e o produtor esconde-se atrás de um nome empresarial que ninguém parece conhecer, só os actores mais antigos e  de primeira grandeza parecem perceber quem são os mandantes. Na verdade, os proprietários do teatro já não o controlam, uma forma civilizada de escravatura.

O teatro europeu continua a pretender exibir as grandes reformas estruturais que serão a antecâmara de mais salões de riquezas e de progresso, mas as grandes reformas são como a galeria dos espelhos, realmente apenas se reflectem mas nada contêm. Há a ilusão sonhada dos produtores de controlarem aquilo que não têm, a forma elevada da tirania, outra comédia. Não há nem houve nunca governo algum, Lao descobriu-o bem cedo. As famosas reformas são de dois tipos, as mais imediatas, de concepção das raposas, com redistribuição habitual de recursos financeiros. Há ainda muito para fazer, pode-se tirar ainda bastante de um lado e dar ao outro, muitas formas de vida podem evoluir, basta pensar na ociosidade prisioneira da juventude árabe em Belém até á errância contínua quase browniana em busca da sobrevivência de Bombaim. A periferia europeia tem ainda tanto para contrair, para empobrecer aguentando por mais algum tempo os superavits do centro – hoje foi divulgado que o alemão e o holandês caminham para 10% e isto apesar do produto potencial ainda estar cerca de 20% do produto real. As verdadeiras reformas estruturais, o núcleo do desiderato é a irrelevância, o corolário desejado, louco e revolucionário, já os capatazes tinham feito isso com o agrimensor do castelo – enquanto tal desmesurado fim não chega, de tal grandeza que perturba, os capatazes descem á aldeia cobrar as comissões e beber a cervejas para animar a algo apagada líbido, as raparigas do povo já não o que costumavam ser, a procriação desce a olhos vistos, mesmos os teutónicos exuberantes e gordurosos só fazem 1.3 filhos a cada fêmea.

A dívida terá finalmente o último préstimo, passa da menos importante renda para a mais decisiva posse. O grande trabalho já está feito, todos querem é condições para contraír dívida, lá se vai o conselho de Adam Smith sobre a perigosidade das dívidas soberanas, mas isso faz parte da bíblia renascida do neoconservadorismo, que de conservador só tem o nome. Até os infantilizados gregos é isso que querem, autorização para continuar a contrair dívida para rolar a mais antiga, foi esse o trabalho herculeano de Maria Luís, endividar-se enquanto é tempo. A democracia prova a tese de humano, demasiado humano, gera a criança. A democracia sem jornalismo adulto e independente – mas como era possível tal haver – gera a decadência política antecipada por Tocqueville.

Safa-se o império, convenientemente já para lá da democracia, com a sua agenda militar e mercantilista dos tratados transatlântico e transpacífico.

Sextus recomenda “Unstoppable” de Ralph Nader, ou o sonho de remover os revolucionários neoconservadores e substituí-los pela aliança do conservador dos fundadores com partes do optimismo impenitente dos liberais.

Talvez a europa se salve quando enterrar a CE, mas a dificuldade de remover milhares de capatazes, ainda por cima em parte pagos pelo império, a única entidade consciente adulta – o império do meio renasceu da crisálida, ainda está tenro e talvez nunca cresça o suficiente, ta como da primeira vez – é de monta. O povo ainda os aclama, pelo menos durante mais uma geração, tempo largo para vender a novilíngua e o duplipensar até à estupidificação irreversível.

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A contradição como salvaconduto para a sobrevida do poder ou para já Nicolau ganha a Frederico, no fim teremos sempre as pedras e as fisgas

Nesta metade ocidental do mundo e nos últimos cem anos, assistimos à dominância da inteligente transfiguração dos fundamentos do poder, desde a tradicional mistura de sangue com riqueza para a aparente tiragem à sorte da democracia baseada na representatividade e na territorialidade, manobra de escape para acomodar a acumulação do saber dos séculos anteriores, mais presente e emproado pelo iluminismo. Mas consequente ao saber está o esquecimento e o engano.

O saber ocidental sempre lidou mal com a contradição, com o tratamento da exclusão do terceiro. Só o conforto derivado do refúgio na sombra que a matemática procurou, evitou que o raciocínio ocidental atenuasse a desilusão de se confrontar com o falhanço de Russell e com o sucesso de Godell e do seu teorema da incompletude.

Numa extensão algo larga, podemos dizer que Godell levou ao triunfo, pelo menos até agora, do conhecido “como se” anglo-saxónico e à derrota do pensamento franco-germânico. A afirmação do ser deixou de poder ser espelhada no devir hegeliano do estado, passou a repousar na tautologia.

A evolução do poder não deixou de receber estas influências. A tautologia, melhor, a auto-referenciação, passou também a guiar a existência do poder. A auto-referenciação é obviamente muito poderosa e sólida enquanto que tal for possível, só que é quase impossível identificar os momentos em que a auto-referência se esgota. A auto-referência procura a eternidade pela inclusão e anulação da contradição.

O poder ocidental  dos tempos presentes tem três camadas principais de apoio: a  financeira, a  militar-financeira e a civilizacional, sendo esta de longe a mais fraca, debilidade que se percepciona de forma mais clara na demografia e na arriscada eliminação da nacionalidade dos excedentes periféricos.

A financeira atravessa um momento curioso, com sinais opostos, um de grande vigor e outro de grande fraqueza. O primeiro apercebe-se na evolução da quota parte que arrecada do lucro do capital, sempre em crescendo nas últimas décadas, algo que muita gente tem esquecido. Apesar dos protestos de muitos pela crescente importância do mundo financeiro já datarem desde o início do século passado, a verdade é que nessa altura a componente financeira do produto ainda estava abaixo de 10% do PIB, mas no momento presente já ultrapassou os 15%. Mais, a parte do capital também voltou a ultrapassar os 50% do rendimento nos últimos dez anos, depois de um valor inferior a 45% nos anos sessenta. O sinal da debilidade deriva das expectativas de retorno do capital para o futuro a curto e médio prazo, de volta aos valores á volta dos 3 a 4% e mesmo isto á custa do muito maior retorno dos super-acumuladores de capital que vão conseguindo retornos entre os 7 e os 10%, sempre à custa da informação privilegiada. Aqui o controlo / captura dos reguladores foi essencial, uma contradição típica que assegura cada vez maior liberdade com cada vez maior regulação, com o brinde nada desprezível de ter criado a aparente necessidade de um exército de funcionários ditos muito indispensáveis e competentes, logo muito bem pagos, exemplos típicos dos gestores, advogados e banqueiros. A contradição brilhante aproveitada pelo mundo financeiro foi a criação do seu regulador, o banco central, garante do seu domínio sem os incómodos da satisfação das massas – não é preciso sujar as mãos a fazer a massa dos brioches. a desmaterialização do dinheiro, a quase exclusiva criação de dinheiro apoiado em dívida cimentou o poder quase absoluto. A sua contradição fulcral é a colisão entre o seu domínio sufocante e a sua invisibilidade procurada – um poder que não se sacraliza pela cerimónia pública tem sempre muitas dificuldades em momentos de curva, não pode falar.

A componente militar-financeira está com um vigor extraordinário, mais uma vez á custa da região do médio-oriente e em menor escala o continente africano. Esta componente tem evoluído para outras formas de armas, mais apoiadas na vigilância / espionagem que se desenvolve sem freios e que vai evoluindo para o antecipado “big brother”. Fica por saber se existe algo de autónomo e viável para além do sistema de espionagem montado pelos anglo-saxónicos dos hemisférios norte e sul, mas a subserviência franco-alemã não fica nada atrás da que a luso cacânia exibiu na altura das viagens entre o afganistão e cuba. A segurança máxima e filha da contradição foi a criação da figura da nuvem para armazenamento de informação, realmente não uma nuvem inocente e passageira do mundo, mas algo enterrado muito seguramente em qualquer bunker dum estado do oeste central americano. A grande contradição é o seu fundamento radicar na sua insuficiência, pede-se cada vez maior segurança por que esse poder não consegue, fundamentalmente não quer garantir essa protecção. Quanto tempo consegue o furtivo incendiário justificar o gasto nos bombeiros é uma pergunta de difícil resposta mas para já a inteligente mistura de terror, hipervigilância e infantilização tem conseguido levar o barco a bom porto. O complexo militar-financeiro consegue o prémio de justificar cada vez maior estado no centro, permitindo-lhe o nacionalismo ao mesmo tempo que promove o inescapável internacionalismo da periferia anã e infantil, incapaz de se defender dentro do enquadramento nacionalista. Esta ambivalência garante-lhe para já todo o sucesso até á emergência de um poder alternativo asiático mas de duvidoso nascimento.

A civilizacional repousa numa herança muito antiga, dita greco-judaica-cristã, uma sopa de pedra que foi sempre mal cozida porque a sua ligação dependia mais do outro, o mundo hindu-budista, do que dela própria. Esta referência tem evoluído para posições de bloqueio quando se pretendeu atribuir á vertente anglo-saxónica a sua emergência mais aperfeiçoada e última, o conhecido fim da história. Esta idealização ia a par com a globalização, a natural consequência do fim da história, com a as periferias a sofrerem um processo de descoloração e desestruturação para mergulhar no superaquecido centro que tudo consome. Esta globalização é também uma forma interessante e com manifestações opostas de lidar com os problemas, atrofia e desnata as periferias para salvaguardar a satisfação dos apetites do centro, cada vez mais voraz a uma mesa que parece mais desguarnecida. A fragmentação da importância dos poderes permitiu anular os efeitos indesejáveis de oscilações populares que passaram a votar em alternativas muito estreita, a globalização consegue facilmente acomodar qualquer devaneio entre o hamburger e o frango assado, ensaia o certificado de óbito daquele que ainda não morreu. O processo totalitário está em curso promovido por capatazes revolucionários que numa hábil utilização novilinguística,  carimbam de reaccionários e populistas todos os outros, os novos demagogos do passado.

Lidar com este programa implica voltar aos bons velhos tempos da sangria para melhorar a inflamação pela anergia e fraqueza. Para isso a presença de capatazes fiáveis que garantam a colecção de impostos que vão pagar os juros do capital emprestado é decisiva, capatazes esses que também asseguram a continuidade dos empréstimos, o regresso aos mercados – aqui Picketty tem a sua melhor contribuição, se um estado precisa de dinheiro que lance impostos e não que contraia dívidas, os impostos serão a melhor garantia de moderação no futuro, as dívidas como se viu nunca o foram.. Mais uma vez é necessário lidar com a contradição dos sucessivos pagamentos serem incapazes de abater á dívida que continua a crescer. Tudo isto é temperado pelo discurso das reformas que é sempre apoiado em teorias que não são verificadas na realidade o que as tornam mais robustas porque permitem explicar tudo e o seu contrário.

O extraordinário prec globalizante está a pouco de conhecer a vitória total. Como já mais vezes se citou, Tocqueville receava a infantilização que viu nascer nos USA como limitante a gerar as energias que pudessem ser necessárias. Se a globalização se cumprir na totalidade antes do choque de poderes, restará como motor da história a velha raridade de recursos. Não discutiremos ideias, lutaremos por água, terra e alimentos. Cumprir-se-á o destino, voltaremos, á bomba, á idade da pedra.

Duas leituras recomendadas: “the secret of the temple” e “la haine de la démocratie”.

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Na periferia não há ilusões perdidas, há ordens para ser cumpridas, passa-se o tempo à espera que passe e dá-se pontapés nas pedras das ruas a abafar o ruído das raposas no galinheiro

As sociedades registaram muitas evoluções consequentes à divisão do trabalho mas uma das mais relevantes foi a delimitação mais clara entre o núcleo e a periferia. No desenho de uma máquina, na sucessão de actos conducentes a um produto, na acumulação orientada de saberes para derivar uma premissa há tempos e zonas centrais e períodos e actos periféricos e laterais. Será sempre impossível perceber se Adam Smith não realizou que a divisão de trabalho não poderia promover desenvolvimentos equilibrados ou que Ricardo não entreviu que o uso das vantagens comparativas é um processo dinâmico, aberto a movimentos de boomerang que podem contrariar as premissas, principalmente quando os resultados a médio-longo prazo sobre  o desenvolvimento de capacidades e a formação de capital fixo são tão díspares – produzir vinho e produzir têxteis levam a duas evoluções muito diferentes, Ricardo não viu, ou viu e escondeu?

Portugal foi empurrado, mas com a sua colaboração activa por cansaço dos trópicos, para a periferia da ponta europeia e vem perdendo para o centro europeu desde os últimos três séculos. Conforme a regra, a elite de uma periferia entra num processo lento de deliquescência e acaba por desaparecer transformada numa trupe de funcionários-capatazes.

O processo de centrifugação não parou aqui mas pode ser sempre atenuado pela dinâmica da massa crítica, claramente uma das variáveis que têm ajudado a vizinha Espanha. É certo que não é imediato reunir uma teoria explicativa para o melhor desempenho dos nórdicos, os outros grandes periféricos, embora o sucesso escandinavo tenha sido pontuado por inflexões dramáticas, com períodos de fome generalizada que levaram á emigração que veio a povoar e constituir os estados centrais da região fronteira entre os EUA e o Canadá.

Uma elite transfigurada como a lusa mais facilmente embarca em aventuras de deslegitimação adicional. Fomos sempre um dos mais entusiastas da transferência de poderes, fomos um dos mais entusiastas da adesão à moeda única. Parte deste infantil e suicidário regozijo adveio de uma ignorância mais ou menos geral das elites actuais, que após a declaração do fim da história quiseram acreditar como  desnecessária a actividade da reflexão sobre o passado. Mesmo assim impressiona a facilidade com que largamos a capacidade de criar dinheiro, só entendível no contexto alargado de demissão pós segunda guerra mundial. Se estivéssemos atentos, um dos sinais mais eloquentes desta demissão – auto-anulação transparecia do envio mais ou menos voluntário das reservas de ouro para os cofres dos bancos federais americanos.

O escândalo da passagem de dados de espionagem alemã para a NSA americana que nada têm a ver com a repetida ad nauseum por acéfala luta contra o terrorismo constitui outro deprimente exemplo do rapto das elites europeias pelo império americano. Ainda estamos a pagar os custos da última grande guerra europeia.

Em Portugal, 2015, lidamos com esta dupla amputação, uma elite que se deixou caricaturar e de muito baixa qualidade por falta de uso – décadas de irresponsabilidade própria de quem só recebe ordens.

Aqui se fundamenta muita da apatia lusitana que já não tem o luxo das ilusões perdidas nem o doce engano da segurança de quem recebe directivas adequadas. A crise europeia tem posto em relevo este duplo desconforto. Não se trata certamente de incompetência pura dos funcionários europeus do presente, realmente a incompetência está mais atrás, nas escolhas impossíveis dos funcionários em período de retirada que ainda tinham sofrido directamente os estilhaços da guerra – o projecto é impossível, o desenho irremediavelmente defeituoso para todos menos para o centro.

A isto há que acrescentar o domínio completo pelo mundo financeiro, algo que se veio a construir lentamente e que atingiu um estádio muito avançado quando a formação de dinheiro passou a estar debaixo do total controlo de alguns poucos que com o tempo passaram a apresentar com toda a exuberância as consequências mais funestas do poder absoluto, a postura de inimputabilidade e da negação – veja-se a narrativa sobre a crise das dívidas soberanas e privadas e a forma como tem sido tratada. Esta crise, muito mais do que qualquer outra coisa, veio exibir o colapso da imprensa como quarto poder e o enterro da democracia partidária no modelo que conhecemos.

O “As if” anglo-saxónico vai ser testado mais uma vez, até agora, alguma qualidade decisória e alguma limitação do alcance das opções tomadas sobre a vida das sociedades (um dos mais eficazes limitadores dos prejuízos ao longo da história humana) têm permitido saídas mais ou menos airosas. A grande dificuldade origina-se no afã do império em garantir por bom período a sua supremacia e das suas mega-empresas, contando para isso com a colaboração activa dos funcionários que foi colocando deste lado do oceano e que foi posicionando no lado asiático do pacífico. É esta grande força que constitui a maior fraqueza porque as consequências do desastre podem ser de tal forma que impliquem um conflito.

A ambição desmedida foi sempre a perda dos poderes sucessivos, claro que determinar aquilo que é desmedido não é imediato nem consensual, não há uma TINA para avaliação dos desmesurado. Aquilo que se joga na definição dos poderes do BCE e dos outros bancos centrais e nos ameaçadores e secretos acordos de livre comércio tem talvez demasiado alcance, o erro vai ser inevitável e pode ser perigosamente grande. A globalização ditatorial e forçada irá descobrir que aquilo que lhe é mais próximo é o magma vulcânico, hiper-destrutivo e que quando arrefece produz cinza e algumas rochas amorfas, só muito depois, milénios, o solo até se pode tornar muito fértil. No magma está tudo, nada se utiliza.

Pode uma mega-elite inimputável e sem contrapoder ter qualidade para lidar com a situação será uma pergunta que a periferia não fará – veja-se a qualidade da imprensa portuguesa – a periferia aguarda ordem para mover ou para aguentar, nesse intervalo estupidifica e dá pontapés nas pedras das ruas.

O que pode ser um país de criados e capatazes sem ilusões? Apenas uma região, aquilo em que nos tornamos, embrulhado num discurso tão leve como o dos servos.

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O paradoxo pirrónico da cacânia: da suspensão do ser até à consequente vacuidade

A história continua a desenrolar a sua curva e a revelar algo daquilo que nos vai apresentar mais à frente. A curva funciona como um teste de stress mas com maior potencial.

Na luso-cacãnia – e na euro-cacânia – há eleições nos próximos meses. Pode haver eleições na cacânia? Poder pode, mas com um enquadramento curioso, cacânico. As eleições servem para perpetuá-la, logo são e não são ao mesmo tempo. Certamente que é difícil operar esta arte, algo como celebrar uma missa e o vigário avisar no preâmbulo que tal para nada serve. A reacção dos assistentes será de desânimo e incredulidade se ainda não tiverem completado a sua aprendizagem do não ser, a entidade máxima. Tal religião implica um assentimento ainda mais completo do que aquele defendido por Newman, o bispo católico convertido na Inglaterra vitoriana.

As eleições são apontadas como um sinal duma governação democrática. Pode haver democracia na cacânia? Poder pode desde que esteja interiorizado a inutilidade  / impossibilidade da governação. A democracia cacânica implica chegar ao fim da história, ao “governo” global onde nada pode existir fora dele.

Pode haver governo cacânico? Poder pode, desde que não exista por já não ser necessário e aqui a ausência é a última prova da sua existência, um pouco como as figuras de polícias de cartão colocados em alguns sítios mais perigosos das estradas do Japão do fim do século.

Pode a cacânia existir? Poder pode desde que não se sinta a necessidade da sua existência por habitar cada um.

A luso-cacãnia via à frente da euro-cacânia, paradoxal emergência do quinto império. A elite local á a mais avançada no processo de cacanização geral a que só escapam o poder imperial – com bolsas de cacanização – e o seu desafiante, o velho império do meio, ainda não afogado depois de ter conseguido evitar o enterro da sua moldura confucionista, ameaçada pelo interregno maoísta. O curioso é a contradição entre a postura do império e o seu devir mais lógico, a cacanização, prole dilecta dos seus pais, o mercado e a globalização. Aqui o paradoxo é entre a aceitação da futilidade da governação e a maximização da sua força por trás das cortinas, claramente descortinada pelas negociações secretas para o assetimento dos tratados comercias trans- atlântico e trans-pacífico.

A elite luso-cacânica tem medo, ou melhor, já está impossibilitada de descortinar a oportunidade gerada pela crise, corolário lógico, na cacânia não há crises nem oportunidades. A elite luso-cacânica sofre quando muito de cefaleias, tão frequentes na organizadora dos chás e jantares frequentados pelo homem sem qualidades. As cefaleias têm origem no medo de falhar as responsabilidades de uma tarefa que já não se vislumbra, são as cefaleias do vazio.

Os debates que aí vêm sobre as eleições serão uma manifestação desse mal-estar da vacuidade antes de se atingir a perfeição do não ser. Aparentemente, os gregos estão à beira de ultrapassar a luso-cacânia neste processo de transmutação. Na Grécia iremos vislumbrar a cacânia pobre talvez ainda antes da Lusitânia, na França aperceberemos a cacânia rica.

Esta transmutação tem pernas para andar porque se serve do paradoxo como moldura da sua existência transmutante. O paradoxo é sempre a forma mais resistente de afirmação até atingir um cansaço fatal. O paradoxo é a reclamação de menos governo para melhor eficiância dos mercados e a exigência dos mercados do poder dos governos, como sempre assim foi – os chamados custos de transacção dos economistas que com a sua demência, induzida ou espontânea, transformaram esses custos numa não existência.

A cacânia tem como paradoxo primário a compatibilização impossível entre governo nacional, democracia e globalização, como paradoxo secundário mas igualmente limitante, a compatibilização entre dívida, crescimento e demografia negativa – na cacânia já Musil indicava que a maternidade era origem de cefaleias e de pulsões contraditórias entre a juventude eterna e a maternidade, o primeiro sinal da morte.

A cacânia vem aí e tanto pode durar uma eternidade como apenas uma geração. Um bom céptico suspende aqui o seu julgamento.

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Depois do cabo da boa esperança, o cabo da grande cacânia ou a diferença entre ser o dono do barco e o embarcadiço á força do “Flying Dutchman” mais doido do que nunca porque sabe o que aconteceu a Jasão

Nas sociedades crepusculares o caminho é único, não por falta de alternativas mas por falta de condições para ver ou o conhecido, de noite todos os gatos são pardos. Quem não sabe fazer nunca poderá escolher. Sabe-se que quem não conhece para onde ir nunca apanha os ventos favoráveis e se o piloto não é dono do barco a situação de indefinição aprofunda-se. A europa cacânica não sabe para onde ir e não tem dono, talvez melhor, o dono não se quer apresentar ou até talvez tenha sido eliminado. O melhor monarca hobbesiano é uma múmia cimentada num pedestal emitindo um discurso novilinguístico de inacabada decifração.

Curioso, que um continente envelhecido, os capatazes mais ou menos senis e que já não escutados pelas massas já cansadas de nem descobrirem o início da vereda que conduz ao castelo, se dediquem à juvenil arte de surfar as ondas que por hábito ocultam a direcção da corrente dominante.

É duvidoso que os gastos mercados dominem o que quer que seja, os mercados são construções humanas, logo de duração e alcance limitados. A condição humana sofre a influência mais silenciosa mas férrea da sua pertença à natureza.

Os mercados querem crescimento e rentabilidade de capital, duas coisas cada vez mais liluputianas na europa para não falar da presciente lusitânia, o farol da cacanização.

A rentabilidade do capital tem permanecido estável durante os últimos cento e cinquenta anos, com os óbvios picos e vales desencadeados por guerras alargadas. A análise cuidada da evolução dos produtos internos brutos mostra uma correlação muito maior com o crescimento demográfico do que com o badalado crescimento tecnológico.

O capital no futuro a médio-longo prazo vai procurar os sítios onde o par crescimento populacional e satisfação de um pacote que conquistou o estatuto de básico mais dele necessita e mais o pode recompensar, a áfrica toda e ainda uma enorme parte da ásia e da américa hispânica. De resto o crescimento norte-americano vai continuar a ser superior ao europeu porque é o incumbente, goza do privilégio excepcional de emissor da moeda imperial e domina totalmente a máquina de guerra e todo comércio associado de lucros incomuns. À europa não cabe a melhor parte de nenhuma destas fatias, cabe-lhe ainda um bom resto apesar de tudo. À europa cabe aquilo que a natureza lhe destinar apertada pela negociação que americanos e chineses lhe impuserem.

O surfar do centro europeu sobre as ondas do petróleo a preço de desconto e de capital a custo zero terminará, como é da natureza das ondas, na praia tão próxima. Quando as massas pagam o bilhete para embarcar num barco que os deita à água logo depois, com uma prancha manhosa, o murmúrio na praia sobe de intensidade, o preço é muito caro, a viagem não vale a pena.

Pior, percebe-se que o recreio não é definido pelo vendedor da viagem de barco. Quer a necessidade dos produtos, quer a valorização do trabalho, quer a distribuição que cabe ao capital e ao trabalho são todas variáveis de grande amplitude, algumas até à sua eliminação quase total, mesmo a necessidade de cuidados médicos, algo que constituiria o extremo de pouca variabilidade por dependente das leis naturais é de uma discricionaridade espantosa. A europa percebe que está a perder a capacidade de definir a sociedade, as suas necessidades, a hierarquia dos desejos. A europa infantiliza-se, melhor, como não consegue pôr o relógio a andar para trás, cacaniza-se. Esta incapacidade crescente em protagonizar a definição da sociedade está a ser percepcionada pelo mundo lateral, mais jovem, até antes receptáculo de exportação das massas inúteis dos impérios, depois, ele próprio e até agora, emissário de mão de obra fresca e a custo quase nulo; a senilidade europeia é pornográfica.

As massas da periferia infantilizada começam a desconfiar que o patrão do barco não é o seu proprietário, que não sabe para onde vai, que não vale a pena substituí-lo pelo contra-mestre, outro da mesma igualha. O outro barco que ainda é um pouco diferente é o navio-almirante, único com poder de fogo que atemoriza, logo ainda reúne.

Qual o interesse de embarcar nos barcos secundários para além de manter o emprego e os confortáveis ordenados dos marinheiros-gestores de água doce – é verdade, eles também não sabem fazer mais nada, lá aumentava mais o desemprego, conforme se tem amplamente visto, todo o seu saber residiu na construção da teia, algo sempre muito fácil de reconstruír e sempre susceptível de redução dos seus nós.

Enquanto que o discurso do chá pré- cacânico sobre o crescimento, sobre a austeridade – que saudades da austeridade expansionista – sobre a TINA for vendável tudo continuará como dantes à espera que a mãe natureza se encarregue de fazer uma rearrumação, com a poieirada inerente.

Até lá que ainda demora, a reivindicação possível é a diminuição dos capatazes – gestores, muito caros e que desperdiçam muito dinheiro e a diminuição dos patamares da representação – já não é mau. O mais inconveniente é o continuar da captura do melhorzito da periferia pela sub-centralidade germânica até à recondução deste povo á loja das caldas – e dos espanhóis a las bodegas e tutti quanti…

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